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  • O que fazer numa crise de sobrecarga sensorial?

    O que fazer numa crise de sobrecarga sensorial?

    A crise de sobrecarga sensorial é extremamente desconfortável. Ela acontece quando o ambiente traz mais estímulos do que o cérebro pode processar – neste caso, o cérebro não consegue deixar de lado estímulos menos importantes, por exemplo, deixar os sons da rua e se ater ao som de uma conversa, ou processar algum estímulo mais intenso que exista no ambiente.

    Geralmente a sobrecarga sensorial é mais comum em:

    • Transtorno do Espectro Autista
    • TDAH
    • TEPT
    • Transtorno do Processamento Sensorial

    Vale lembrar que eventualmente pode acontecer em quem não tem esses diagnósticos, em especial em situações de grande estresse, ansiedade ou no caso de estímulos muito intensos.

    Durante uma crise de sobrecarga sensorial, podem acontecer:
    • Cansaço extremo
    • Dor de cabeça
    • Sono
    • Irritabilidade
    • Dificuldade para se concentrar ou mesmo para “acompanhar” aquilo que se passa ao redor
    • Dores ou desconfortos físicos como enjoo, coceira, tremores, tensão muscular…
    • Sensação de inquietude, por exemplo, necessidade de andar, aumento de estereotipias ou a sensação de que as situações continuam (mesmo que já tenha saído do ambiente)
    • Incômodo com sons, falas, luzes, cheiros, texturas… mesmo aquelas que geralmente são toleradas e habituais
    • Choros e gritos são comuns em crianças (e isso não tem nada a ver com birra), mas podem acontecer nos adolescentes e adultos também
    • No momento da crise e logo após, a pessoa pode ter dificuldades de fala, para se expressar ou para retomar suas atividades
    Se inspira na dica: atitudes práticas para momentos de sobrecarga
    • Descansar
    • Respirações profundas e lentas
    • Soltar a musculatura
    • Sair do local, vá a algum lugar mais tranquilo
    • Se possível, afrouxe as roupas, tire os sapatos, abra alguns botões
    • Não reprima estereotipias, caso aconteçam
    • Atividades regulatórias (como um banho morno, se alongar, se dedicar ao hiperfoco…)
    • Usar óculos escuros (lembrando que nem sempre é “só” a luz que incomoda, mas este é mais um estímulo a ser somado – nem sempre podemos contornar todos os estímulos, mas este nós podemos!)
    • Usar abafadores de ruídos (veja aqui como escolher o seu). Se possível, pode usar antes de ter contato com situações e estímulos mais intensos, durante e mesmo após, para se recuperar
    O que fazer se outra pessoa tiver uma crise de sobrecarga?
    • Acompanhe a pessoa até um lugar mais calmo. Estar ao ar livre pode ser uma boa ideia
    • Afaste curiosos
    • Não fique tocando na pessoa
    • Não grite
    • Pergunte se ela precisa de algo, se quer ajuda para ir para casa
    • Esteja com ela, mas sem forçar uma interação, isso pode ser complicado para ela neste momento
    Para todas as pessoas:
    • Evite julgar, a pessoa também está desconfortável e não gosta de passar por isso
    • Combater o bullying e o preconceito é fundamental – inclusão começa com informação e respeito
    • Seria incrível ter em casa, na escola e no local de trabalho, um cantinho mais tranquilo e isolado para a pessoa se recuperar sempre que necessário. Penso que todo lugar público deveria ter um cantinho assim.
    Lembrando sempre:

    Sempre oriento os meus pacientes a se observarem e a observarem os detalhes do que aconteceu. Quando a gente olha para os pequenos detalhes da crise, podemos aprender a identificar padrões e sensações comuns de quando ela começa, assim como perceber que tipos de situações/sensações geram crise. Com isso, é possível agir ANTES do início da crise, reduzindo muito o desconforto do paciente e melhorando a qualidade de vida.

    Procure ajuda profissional. Podemos cuidar disso e melhorar muito sua qualidade de vida. Conheça nossos serviços clicando aqui


    Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:

    CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. O que fazer numa crise de sobrecarga sensorial?; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2023. Disponível em: <https://https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2023/06/05/o-que-fazer-numa…ecarga-sensorial/> Acesso em 05 de junho de 2023.

  • Palilalia: “por que meu filho autista repete a própria fala?”

    Palilalia: “por que meu filho autista repete a própria fala?”

    Essa pergunta veio através do meu Instagram, virou post e migrou aqui para o site. O nome desse comportamento de repetir a própria fala é palilalia.

    Como assim repetir a própria fala?

    Vamos ver um exemplo:

    Vamos começar a consulta de hoje?

    -Vamos vamos vamos!

    Palilalia ou ecolalia?

    Ambos são sobre repetição da fala. Mas enquanto a palilalia é a repetição da fala do próprio paciente, a ecolalia ocorre quando a fala repetida é de outra pessoa – por exemplo, repetir a pergunta que alguém fez, uma frase ou palavra que escutou na TV… A ecolalia pode ocorrer de imediato ou tempos depois.

    Em quais tipos de caso a palilalia geralmente acontece?

    A palilalia geralmente acontece em pacientes com:

    • Transtorno do Espectro Autista
    • Tourette
    • Demências como o Alzheimer
    • TDAH (neste caso, é um comportamento ligado à impulsividade e hiperatividade)
    Por que o paciente repete a própria fala?

    Alguns motivos para isso acontecer:

    • Para dar ênfase à resposta ou à fala, especialmente em situações que parecem urgentes para a pessoa ou sobre as quais ela tem dificuldade para explicar e argumentar
    • Em momentos de crise ou sobrecarga (sensorial, emocional…)
    • Perseveração, um processo neurológico em que um comportamento é repetido sem que o cérebro “perceba” que aquilo já foi dito/feito
    Lembrando sempre:

    Muitas vezes a pessoa não tem controle desse comportamento. Ou seja, geralmente ela não faz isso de propósito. Pode se dar conta logo após fazer ou nem perceber.


    Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:

    CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Palilalia: por que meu filho autista repete a propria fala?; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2023. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2023/06/06/palilalia-por-qu…e-a-propria-fala/> Acesso em 05 de junho de 2023.

  • 5 Atividades de autoconhecimento

    5 Atividades de autoconhecimento

    O autoconhecimento vai muito além de saber o que a gente gosta ou não gosta. Inclui conhecer os nossos hábitos e valores, assuntos mais frequentes e aqueles que evitamos, como costumamos agir, quais as nossas facilidades e dificuldades, qual costuma ser a dinâmica das nossas relações sociais… Autoconhecimento é um ponto central na prevenção em saúde mental. Faz toda a diferença na nossa capacidade de fazer escolhas e agir de forma assertiva. Pensando nisso, hoje trouxe 5 sugestões de atividades práticas para você se conhecer melhor. Vamos juntos?

    1- Escreva uma página

    Preencha a página toda. A ideia não é fazer um texto, não precisa ser coerente ou ligar os assuntos. Não precisa ficar bonito, tá? Escreva sem filtro. O objetivo é perceber o que ocupa seu espaço mental. Quando a gente faz isso todos os dias, começamos a notar pensamentos e emoções mais frequentes e como tendemos a lidar com eles.

    2- Faça pausas

    Com atividades em que você é quem faz, não apenas coisas de assistir ou rolar a tela… Essa atividade ajuda a perceber do que você gosta, o que te faz bem. O que você escolhe quando “apenas” a sua vontade e bem-estar estão em jogo?

    3- Atividades de expressão

    Ou seja, todas aquelas atividades que te permitem colocar para fora aquilo que se passa aí dentro. Isso inclui escrita, desenho, artes, bordados, tocar um instrumento musical, dançar…

    4- Esportes e jogos de equipe

    São icríveis para entender como você interage com os outros em seus diversos papeis (companheiros de equipe, adversários, torcedores, intrutores ou técnicos, etc.). Além disso, também te permite perceber como você lida com regras, com vencer ou perder, como cria estratégias…

    5- Manter um diário

    Pode ser por escrito, gravando áudio ou até em vídeo. O objetivo é se organizar por dentro e processar tudo aquilo que vem acontecendo enquanto conta sobre fatos e experiências que teve, mas também sobre vontades e planos, lembranças, sentimentos, opiniões ou sobre o que quiser. Com o tempo você perceberá atitudes frequentes, conflitos, buscas…

    Bônus! Ela mesma, a terapia

    Fazer psicoterapia não é só para quem tem algum transtorno mental ou está enfrentando um grande problema. É possível focar a terapia no autoconhecimento e na prevenção. Entenda mais aqui e conheça nossos serviços clicando aqui


    Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:

    CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. 5 atividades de autoconhecimento; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2023. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2023/06/07/5-atividades-de-autoconhecimento/> Acesso em 07 de junho de 2023.

  • Qual a função dos sonhos?

    Qual a função dos sonhos?

    Diferente daquilo que muitos imaginam, os sonhos não são apenas produto do cérebro funcionando durante o sono. Eles têm função prática, em termos de neurociência.

    Primeiro, é importante saber que o sono não é regular, tem diferentes fases com características próprias. Podemos sonhar em qualquer fase do sono, mas a maioria dos sonhos e aqueles mais vívidos e detalhados acontecem durante uma fase do sono chamada sono REM, marcada por movimentos rápidos dos olhos e por um padrão de funcionamento cerebral diferente daquele que ocorre quando estamos acordados e mesmo em outras fases do ciclo de sono.

    Na maior parte do tempo, nosso cérebro funciona por estimulação simpática, uma maneira de funcionar do sistema nervoso relacionada a luta e fuga. Isso quer dizer que, na maior parte do tempo, vivemos “em guerra” com os estímulos e situações da vida, enfrentando aquilo que podemos enfrentar e fugindo (evitando) daquilo que não podemos enfrentar ou que não sabemos lidar. Esta é uma característica evolutiva, ou seja, foi muito importante para a sobrevivência do ser humano primitivo, luta ou fuga garantia a sobrevivência frente a perigos, predadores, inimigos, desastres naturais…

    Quando dormimos e entramos no sono REM, isso muda! O cérebro passa a funcionar por estimulação parassimpática, relacionada a descanso e processamento, assim, áreas cerebrais ligadas às emoções estão menos ativas do que quando estamos despertos. Com isso, a maneira como esse cérebro perceberia as situações da vida (e as soluções que poderia dar a elas) muda por completo. Durante o sono REM, a forma como o cérebro funciona nos permite processar fatos, sentimentos, lembranças… com menos intensidade emocional do que quando acordados.

    Isso significa que o estresse, a ansiedade e os sentimentos desconfortáveis ligados a esses conteúdos diminuem, assim como outras emoções muito intensas. Assim, o cérebro pode processar melhor tudo isso e, de quebra, aprendemos a lidar com as questões literais ou simbólicas do sonho (seja situações de risco, relacionamentos, medos, dificuldades…) de um jeito mais assertivo, mesmo quando os sonhos são desagradáveis. Afinal, o que você faria se aquilo que te angustia não te deixasse mais com medo, com ansiedade, irritado…?


    Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:

    CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Qual a função dos sonhos?; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2023. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2023/06/05/qual-a-funcao-dos-sonhos/> Acesso em 05 de junho de 2023.

  • Autista que faz masking ainda é autista?

    Autista que faz masking ainda é autista?

    Sim! Mas vamos entender melhor essa história de uma vez por todas.

    Masking é o nome que se dá quando uma pessoa autista imita o comportamento não autista. Por exemplo, quando copia gestos, frases de conhecidos ou da TV, tom de voz, atitudes… Isso faz parecer que a pessoa está bem adaptada e incluída (e faz até uns desavizados acreditarem que a pessoa não é mais autista!), mas não é bem assim.

    Esses comportamentos nem sempre “encaixam” na situação. E, mesmo quando encaixam, geralmente eles não têm fluidez. Além disso, fazer masking é muito ruim para a pessoa autista.

    Masking pode causar:
    • Cansaço extremo
    • Enjoos
    • Dores de cabeça
    • Tremores
    • Alergias
    • Aumento do estresse, depressão e ansiedade (que já são bem altos na população autista, quando comparados à população geral)
    • Crises frequentes e intensas
    • Dificuldade para se recuperar das crises

    Vale lembrar que nem sempre o masking é algo consciente. Ou seja, a pessoa pode fazer sem se dar conta. E, com isso, podem surgir conflitos como:

    • “se eu faço igualzinho ao que percebo que os outros fazem, por que tenho resultados diferentes?”;
    • “nunca me sinto como eu mesmo”;
    • “parece que nunca consigo expressar direito o que eu queria dizer/fazer”;
    • “por que no filme este comentário foi adequado mas, quando eu que comentei, acharam grosseiro?”
    • “quem sou eu se eu pudesse agir naturalmente?”
    A pessoa autista é incluida de verdade com comportamento adaptativo, e não com masking.

    Comportamento adaptativo é aquele comportamento que a pessoa aprende e consegue usar em ocasiões oportunas, de forma funcional e respeitando os próprios limites.

    Além disso, diferente do masking, o comportamento adaptativo é inclusivo. Isso quer dizer que ele tanto permite uma participação da pessoa em diferentes contextos, grupos e situações, como também quer dizer que o comportamento pode ser adaptado de acordo com as necessidades e limites da pessoa.

    O comportamento adaptativo e inclusivo é diferente do masking

    Porque, para começar, são comportamentos genuínos, e não uma imitação. Além disso, o comportamento adaptativo:

    • Respeita os limites da pessoa autista
    • Não gera sobrecarga, crises e desconfortos
    • “Encaixa” na situação
    • Ganham fluidez e naturalidade
    Combatendo o masking
    • Identificar quando acontece
    • Promover a inclusão com as adaptações necessárias
    • Combater o preconceito contra pessoas autistas

    Masking não é sinal de adaptação! E, às vezes, é repetido com tanta frequência que nem mesmo a pessoa se dá conta que aquele não é seu comportamento natural (mas sente as consequências). Atenção especial às meninas e mulheres, e também a autistas que receberam diagnóstico mais tarde.


    Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:

    CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Autista que faz masking ainda é autista?; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2023. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2023/06/07/autista-que-faz-…-ainda-e-autista/> Acesso em 05 de junho de 2023.

  • Compartilhando uma história pessoal

    Compartilhando uma história pessoal

    “Qual foi a experiência que mais te marcou trabalhando na área da saúde?” – essa pergunta chegou para mim um tempo atrás na caixinha do Instagram.

    Como é estranho olhar para trás depois de 15 anos de formada e ter de escolher apenas uma lembrança. Pensei nos casos mais complicados que já atendi, nos livros que publiquei, no meu primeiro paciente, pensei na alegria da formatura e até mesmo na emoção da minha mãe quando soube que eu seguiria os passos dela… E me dei conta que apesar de muitos acontecimentos terem sido marcantes, um deles foi especial – e aconteceu muitos anos antes de eu sequer prestar vestibular!

    Eu tinha 8 anos. Minha irmã, ainda bebê, amanheceu com febre e fui com a minha mãe levá-la ao pronto-socorro. Lembro que o PS estava cheio e esperamos bastante tempo.

    Sabe, eu fui uma criança muito quieta e introvertida. Quase não falava, não era nada agitada, mas amava observar, tentar entender o motivo das coisas serem da forma que são. E via com muita atenção como o médico fazia para examinar minha irmãzinha, o que perguntava para a mãe, como ouvia o coraçãozinho da nenê… Fiquei lá observando como era ser médico.

    Ele parecia muito cansado, era um senhor com seus 55 anos mais ou menos. Até que, já rabiscando o receituário, o médico me perguntou o que eu queria ser quando crescesse.

    -Queria ser médica ou psicóloga ou coisa assim. Mas não sei se daria certo porque não consigo ficar feliz ou achar legal quando alguém fica doente ou se machuca.

    O médico parou o que estava fazendo e olhou sério para mim. Por alguns momentos achei que levaria uma bronca daquelas! Às vezes eu fazia comentários sem pensar. Mas não foi o que aconteceu:

    -Eu também não fico feliz vendo as pessoas ficarem doentes. Mas em algum momento da vida, as pessoas vão se machucar ou adoecer ou sofrer. Não dá para evitar isso, mesmo que elas tomem muito cuidado. E quando isso acontece, é importante ter alguém que saiba o que fazer para cuidar delas.

    Doutor, nunca mais nos vimos, não sei seu nome nem nada sobre você, mas seu comentário marca a minha prática clínica até hoje. Naquele dia, nessa conversa infantil, tão simples e breve, o senhor mudou a minha história. Escolhemos cuidar!

    Foto: Essa sou eu aos 8 ou 9 anos, no quintal da casa da minha avó.

  • Nervo vago: como cérebro se liga a outros órgãos?

    Nervo vago: como cérebro se liga a outros órgãos?

    As funções do cérebro vão muito além de pensar, recordar ou raciocinar. O cérebro também é responsável pelas nossas emoções, movimentos, comportamentos, atitudes e mesmo pelo funcionamento dos outros órgãos.

    Os nervos

    Os nervos, formados por feixes de axônios (parte dos neurônios) são peças fundamentais: são eles que conectam o sistema nervoso central (encéfalo e medula) às demais partes do corpo, permitindo que se comuniquem.

    É graças a eles que nosso cérebro consegue perceber como está cada parte do corpo, e mesmo receber estímulos do ambiente (frio, calor, sons…). Também é graças aos nervos que a outra via de comunicação acontece, ou seja, do cérebro para as partes do corpo: comandos de movimento, comportamentos e funcionamento visceral.

    Nosso sistema nervoso funciona através da combinação de impulsos elétricos e reações químicas. E é assim que os nervos funcionam, transmitindo impulsos elétricos e/ou químicos (as sinapses), tanto no sentido cérebro-corpo, quanto no sentido corpo-cérebro.

    Tipos de nervos

    Até aqui você já aprendeu o quanto os nervos são importantes para a comunicação cérebro-corpo e para manter tudo funcionando. Agora, vamos aprofundar um pouco: os nervos se dividem entre cranianos e espinais. Esses nomes estão relacionados à origem dos nervos, ao local onde eles “nascem” ou, em termos mais técnicos, ao local onde está a raiz do nervo.

    Quando a raiz do nervo é a medula, no interior da nossa coluna, dizemos que é um nervo espinal. Já quando a origem é o encéfalo, é um nervo craniano.

    Mas e aí, como o cérebro se conecta aos outros órgãos?

    O nervo vago

    O nervo vago é o par X de nervos cranianos (ao todo são XII pares de nervos cranianos). É o nosso maior nervo craniano, ele sai do cérebro desce pelo pescoço e chega até o abdômen. No trajeto, se ramifica diversas vezes, enervando nossas visceras – veja a imagem deste post, o nervo vago está em amarelo. Ele é responsável pelo funcionamento das visceras e por várias funções vitais, como veremos a seguir.

    Principais funções do nervo vago
    • Movimentos das cordas vocais, produzindo a fala
    • Reflexos de tosse, vômito e deglutição
    • Movimentos do esôfago
    • Secreção de suco gástrico
    • Movimentos peristálticos (do intestino)
    • Suor
    • Contração do músculo cardíaco e redução da frequência
    • Movimentos envolvidos na respiração
    Nervo vago e emoções

    Não é novidade que nossas emoções se refletem no corpo – quem é que nunca teve aquela dor de barriga antes de algo importante? Pode agradecer ao nervo vago! Ele também é responsável pelas alterações que o nosso corpo sente durante alguma emoção. Por exemplo, mudanças na frequência cardíaca e na respiração, sensações no estômago, funcionamento do intestino… Corpo e mente são um todo complexo e em constante diálogo.

    Leia também: eixo cérebro-intestino: o intestino faz muito mais pela saúde mental do que você imagina


    Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:

    CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Nervo Vago: como o cérebro se liga a outros órgãos?; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2023. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/11/28/nervo-vago-como-…-a-outros-orgaos/> Acesso em 30 de novembro de 2022.

  • Rotina de sono para crianças

    Rotina de sono para crianças

    Pediram lá nos stories, então hoje vamos ver algumas dicas práticas para fazer as crianças dormirem sem confusão nem gritaria.

    Sempre falamos aqui sobre a importância do sono para a nossa saúde física e mental, e já postamos outro conteúdo sobre higiene do sono, que você confere aqui

    Acontece que crianças não são adultos em miniatura! Ou seja, nem sempre aquilo que funciona para o adulto trará o mesmo efeito para os pequenos. E no sono não é diferente. Por exemplo, embora todas as pessoas acordem à noite, o adulto muitas vezes nem se lembra desses despertares, pois já emenda um novo ciclo de sono. Já a criança pequena pode ter dificuldade com isso, como explicamos neste outro artigo aqui: Por que as crianças pequenas acordam tantas vezes à noite?

    Se inspira na dica: higiene do sono versão kids!
    • Eles estão mais agitados hoje? Então antes de começar a rotina de sono, vamos fazer um momento de extravasar: pular, cantar bem alto, dançar, gritar, falar algo que está incomodando (deixa sair!)
    • Evitem jantar muito perto da hora de dormir.
    • Depois do jantar, mantenha a casa mais sossegada, evitando ligar muitas luzes, TV ou música alta ou tarefas que façam mais barulho.
    • Usem pijamas e cobertas de acordo com a estação do ano e/ou o clima da sua região
    • Crie junto com a criança uma rotina da hora de dormir. Pode incluir atividades como tomar banho, vestir o pijama, escovar os dentes, ter uma atividade mais tranquila já no quarto, ganhar um beijo de boa noite e dormir
    • Essa “atividade mais tranquila no quarto” pode variar conforme a idade da criança e o momento. Podem até escolher juntos enquanto se preparam para dormir ou na hora do jantar. Algumas ideias: ouvir uma historinha ou ler um livrinho juntos, e mesmo conversar um pouco sobre o dia que tiveram (dificilmente uma criança fala espontaneamente sobre isso, então é papel do adulto ensinar a conversar e a se abrir, perguntando: o que você mais gostou hoje? Alguma coisa te deixou triste/bravo/chateado? Com quem você brincou hoje? O que teve de mais legal hoje e de mais difícil/ruim/chato?)
    • Este também é um momento ótimo para rezar, orar ou meditar juntos, se a família de vocês tiver esses costumes e crenças
    • Contar histórias também é uma ótima opção. Inclusive histórias suas, sobre o seu dia a dia na época em que você tinha a idade das suas crianças. É uma atividade simples e ótima para fortalecer o vínculo entre vocês
    • Elas estão com dificuldade para relaxar? Uma massagem nas costas e ombros pode ajudar
    • Para os mais novinhos, em idade pré-escolar: vocês podem cantar uma música de ninar antes de iniciar essa rotina. A criança pequena não tem noção de tempo como os adultos, então é normal ela ter dificuldade de mudar de uma atividade/brincadeira para outra. Por isso, essas musiquinhas podem ajudar a alternar de atividade e a marcar tempos e rotinas. Bônus: se for sempre a mesma música, essa associação com a hora de deixar os brinquedos e ir dormir é mais facilitada, além de criar uma linda memória afetiva
    • Lanchinho noturno? Pode sim. Prefiram algo leve, como uma fruta ou um copo de leite
    • Mantenha o quarto à meia-luz enquanto conversam ou fazem algo tranquilo. Vocês podem usar um abajour ou mesmo lanternas.
    • Lembrando de “apertar um xixi” antes de dormir, assim evita molhar a cama ou mesmo acordar logo na sequência para usar o banheiro
    • Não grite, não fale alto, nem se exalte. Isso aumenta o estresse e substâncias como a adrenalina… aí é que eles não dormem, mesmo…
    • Prefira um tom de voz mais baixo e pausado para esse momento tranquilo no quarto – pouco a pouco, a criança começa a entrar nesse mesmo “ritmo”
    Lembrando sempre…
    • Aquilo que para o adulto é óbvio ou “automático” nem sempre é tão óbvio assim para as crianças. Por exemplo, para nós é natural acordar e voltar a dormir, para as crianças, nem sempre.
    • É nosso papel enquanto adultos ensinar nossas crianças sobre a importância do sono saudável e como se cuidar e se preparar para dormir. Então não espere que ela simplesmente saiba o que fazer. Ou seja: a ideia não é simplesmente ordenar “vá dormir”, mas participar, fazer essa rotina de sono junto com a criança
    • Antes de começar a higiene do sono das suas crianças, faça uma breve pausa para se centrar (alguns minutinhos). A criança percebe sua ansiedade e agitação, e acaba refletindo isso.
    • Façam ajustes na rotina de higiene do sono conforme a idade das crianças, a aquisição de independência, preferências e costumes da família.
    • Ah! Mas mesmo quando estão maiorzinhos e mais independentes, também é importante participar e ter tempo juntos: as músicas e historinhas pouco a pouco vão se tornando conversas cada vez mais maduras, conforme chega a adolescência, podem optar por conversar ou fazer algo juntos antes deles irem para o quarto, por exemplo – podem até estar “do seu tamanho”, mas ainda precisam do seu suporte emocional, de referências e valores
    • Lembre-se: os pequenos não ficam agitados “de propósito”! Por isso, não faz sentido algum chamar a atenção deles por isso. Em muitas famílias, a hora de dormir é o período de mais tempo juntos, é normal a criança se sentir animada e agitada para estar com você. Faça deste momento algo gostoso, entenda que ela ainda não tem maturidade cerebral para processar essa animação de outras formas…
    • Quanto mais você gostar deste momento e demonstrar o quanto é importante e especial, o quanto você quer estar com a criança fazendo isso juntos, mais sua criança também vai tender a cooperar e a aderir a essas atividades.

    Aproveite o momento você também! A infância é uma fase rápida e preciosa. Crie boas lembranças para vocês todos. Esse momento da hora de dormir é um momento importante para a família criar laços de afeto, proximidade e cumplicidade com suas crianças. E esses laços vão muito além da higiene do sono ou da infância: perduram pela vida. Bons sonhos!


    Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:

    CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Rotina de sono para crianças; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/11/28/rotina-de-sono-para-criancas/> Acesso em 23 de janeiro de 2023.

  • Janeiro Branco: o que é saúde mental?

    Janeiro Branco: o que é saúde mental?

    A campanha Janeiro Branco surgiu aqui no Brasil em 2014, inspirada em campanhas como o Setembro Amarelo e o Outubro Rosa. O objetivo do Janeiro Branco é chamar a atenção para os cuidados com a saúde mental.

    De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), transtornos mentais estão entre os problemas de saúde mais frequentes e tendem a ser extremamente incapacitantes, pois afetam diferentes contextos da vida do paciente, como a saúde física, as emoções, convívio familiar, relações sociais, o trabalho/estudos, enfim, pode ser um grande causador de mal-estar e dificultar a autonomia da pessoa.

    Revendo o conceito de saúde e saúde mental

    Não existe uma definição única para “saúde mental”. Isso significa que ter saúde mental ou ter um problema de saúde mental pode significar coisas diferentes dependento da época, cultura e contexto. Por exemplo, antigamente, mulheres mais ativas, mais livres, de opinião forte, que não se contentavam com aquilo que se esperava de uma mulher na época, eram consideradas doentes mentais, loucas… Parece um absurdo nos dias de hoje, né?

    Além disso, a ideia de saúde mental é cercada por mitos como “quem sofre de algum transtorno mental não tem/nunca terá saúde mental” ou “quem teve uma infância difícil, cheia de traumas ou algum tipo de violência não tem saúde mental”. Óbvio, mas: tudo isso é fake news!

    Sabe, tem um livro de que gosto muito chamado O normal e o patológico (Georges Canguilhem), em que o autor discute essa relação entre doenças, adoecimento, saúde, cura e normalidade. Por exemplo, ter um resfriado é um momento de doença – mas quem é que nunca teve um resfriado? Ou seja: é normal passar por isso em alguns momentos da vida. É normal uma pessoa considerada saudável ficar resfriada de vez em quando. É normal, na saúde de qualquer pessoa, passar por fases de adoecimento, físico ou mental.

    Para a OMS, ter saúde (física e/ou mental) é muito diferente de não estar doente. Saúde é o estado de bem-estar físico, psicológico e social. Então, quem tem algum transtorno ou doença pode ser considerada uma pessoa saudável se houver esse bem-estar, ainda que, para isso, sejam necessárias algumas adaptações.

    E quanto a saúde mental?

    Com a saúde mental, acontece a mesma coisa. Não existe vida sem nenhum problema, sem nenhum conflito, e até momentos de angústia, de dúvida e de adoecimento. Faz parte da experiência humana. Costumo dizer aos meus pacientes que a “vida normal” tem seus altos e baixos, não existe vida perfeita, mas existe paciente sabendo lidar de um jeito assertivo com os desafios da vida.

    Assim, saúde mental é diferente de não ter situações complicadas na vida, ou mesmo de não ter algum transtorno. É a capacidade de lidar bem consigo mesmo, com outras pessoas com quem convivemos, com os desafios e imprevistos da vida… mas também com nossos desejos, projetos, emoções… Saúde mental é saber se cuidar e se priorizar. Saber colocar limites, se afastar do que/quem não faz bem, saber dizer não. Mas também saber dizer sim para o que queremos, saber se aproximar e cultivar o que nos faz bem.

    Veja também como cuidar da saúde mental na prática

    OBS.: A imagem deste texto é do site oficial da campanha Janeiro branco, super vale a pena entrar lá para conhecer.


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    CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Janeiro Branco: o que é saúde mental?; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/12/06/janeiro-branco-o-que-e-saude-mental/> Acesso em 17 de janeiro de 2023.

  • Depressão de fim de ano

    Depressão de fim de ano

    Não é novidade para quem atua na saúde mental que o fim do ano é uma época complicada para muitas pessoas. Enquanto alguns amam e curtem muito esta época do ano, outras pessoas se sentem mal e têm crises depressivas. E, óbvio porém importante destacar: depressão não é besteira e nem frescura. Depressão é uma doença séria e que traz grandes riscos à vida. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), a depressão é uma das doenças mais comuns e pode se tornar extremamente incapacitante em certos casos.

    Por que é comum ter crise depressiva no fim do ano?

    Vamos a alguns motivos frequentes. Lembrando sempre que cada caso é único e precisa ser acompanhado de perto por um profissional.

    • Frustração pelo ano não ter se desenrolado da maneira como a pessoa imaginava lá no início
    • É um período que favorece a reflexão e pode trazer à tona sentimentos desagradáveis sobre a vida não estar fluindo da maneira como a pessoa gostaria
    • Tensão e sobrecarga gerada pela correria, excesso de estímulos, de compromissos, de interações sociais…
    • Pacientes que já tinham algum transtorno de humor podem apresentar piora nos sintomas
    • Sentir as festas e confraternizações de modo vazio de bons sentimentos, como se não houvesse algum sentido além do consumismo, competitividade e fotos para redes sociais em uma expressão de felicidade que nem sempre é sincera…
    • Também por ser um momento voltado para a reflexão, as relações e o fechamento do ano, muita gente pode se sentir mal recordando lutos e perdas, pessoas queridas que se foram ou até uma fase da vida muito gostosa que não volta mais…
    Se inspira na dica: como lidar com isso?

    Vamos a algumas sugestões que podem ajudar a perceber esta época com sentimentos mais agradáveis. Estas sugestões podem ser interessantes tanto para quem se sente mal nesta época do ano quanto para quem não tem estes sentimentos/sintomas e gostaria de incrementar ainda mais este momento.

    • Passe essas datas com pessoas queridas. Pode ser a família, parentes, bons amigos, companheiro(a). Lembrando que o que faz diferença aqui não é a quantidade de pessoas, mas a conexão que você sente com ela(s)
    • Criar metas para o ano que virá pode ajudar a colocar as coisas em ação e mesmo a se entusiasmar com essa renovação. Mas, atenção: para ter este efeito essas metas precisam de duas coisas: serem possíveis e fazer sentido para você. Ou seja, uma meta precisa ser algo que depende de você, que seja possível realizar e que você queira. Lembre-se que a ideia de ter metas é se organizar para ajustar nossos caminhos de vida, tornando a nossa realidade mais parecida com aquilo que queremos. A ideia nunca é se culpar ou se cobrar de um jeito que te sufoque, combinado?
    • Resgate antigas tradições familiares que te faziam feliz. E isso pode ser simples como fazer aquela receita especial que sua mãe ou avó faziam, arrumar uma decoração num cantinho da casa (mesmo que seja simples – o que vale aqui é o fazer) ou mesmo telefonar ou visitar amigos e parentes para desejar boas festas
    • Faça alguma atividade típica dessa época, como ir ver as decorações de natal na sua cidade, desejar boas festas para as pessoas, provar um prato típico…
    • Crie suas próprias tradições! Por que não? O que faz sentido para você? Como você gostaria de passar as festas, como se sente bem?
    • Envolva-se em ações beneficentes, nada como melhorar o dia de alguém! De quebra, a gente também se sente muito melhor, afinal, é impossível não se alegrar com a felicidade de alguém
    Importante:

    Não é um check-list! Não é sobre cumprir tarefas, ligar para três amigos, comer um panetone e pendurar cinco decorações. Não é um desafio! Ou seja, o que quer que você escolha fazer, adapte para o seu jeito. Torne especial para você. Se envolva nas atividades. Não precisa ser perfeito, nem caro, nem melhor que o de ninguém. Só precisa te fazer sorrir.

    Lembrando sempre:

    Em caso de necessidade, caso esteja complicado passar por isso, caso essas atividades ou sugestões não façam sentido nenhum ou não adiantem nada… procure ajuda profissional. As coisas não precisam ser desse jeito.