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O que é personalidade?

Personalidade vai muito além do “jeito de ser”. Vamos conversar um pouquinho sobre isso hoje.
Se a gente perguntar para qualquer pessoa algo como “o que é personalidade” ou “quais são suas principais características de personalidade”, praticamente todo mundo vai entender sobre o que estamos falando. Mas, no campo da saúde mental, personalidade é algo mais complexo que o “jeito de ser” de cada pessoa.
Como podemos definir personalidade?
A personalidade é a maneira como diferentes fatores internos se organizam e interagem. Ou seja, cada um desses fatores tem um lugar e um papel bem definidos, não se trata de um simples aglomerado, e sim de uma organização dinâmica. Além disso, a personalidade se mostra através de padrões, um conjunto de características consistentes e duradouras.
Quais tipos de fatores a personalidade inclui?
- Pensamento e cognição
- Emoções e afetividade
- Inteligência
- Comportamentos e atitudes
- Percepção
- Controle e inibição de impulsos
- Relacionamento com outras pessoas e com o ambiente
- Aspectos culturais e históricos: inclui pontos como valores morais, papeis sociais, gênero, religião, grupos de pertencimento, e até mesmo aquilo que se espera de alguém em certo contexto (o que é visto como esperado e gentil numa época ou num povo, nem sempre será em outros contextos)
- Aspectos fisiológicos
- Corporeidade
- Desenvolvimento do sujeito
- Autoimagem (como o próprio sujeito se percebe)
Quando a personalidade se forma?
A personalidade se forma ao longo do nosso desenvolvimento. Por isso, como vimos acima, além de fatores culturais e fisiológicos, as primeiras relações com os familiares, cuidadores e coleguinhas podem ter grande influência sobre a personalidade em formação.
Personalidade pode mudar?
Mais ou menos. Por ser formada por diferentes fatores, é preciso olhar para cada um deles em particular. Alguns são muito estáveis e dificilmente se alteram demais, por exemplo, a inteligência. Outros são um pouco menos estáveis, como padrões de comportamento. Já outros fatores que podem interferir na personalidade, como a autoestima, são muito instáveis, podem mudar aumentando ou cainso no decorrer da vida.
Mas, de modo geral, a personalidade é pensada como uma estrutura e, portanto, tende a ser algo mais estável, sem mudanças muito drásticas.
Quando a personalidade está formada?
Considera-se que a personalidade está madura no final da adolescência e início da vida adulta. Por isso, os transtornos de personalidade geralmente só são diagnosticados dos 18 anos em diante, conforme o DSM-5, que também orienta a diagnosticar esse tipo de transtorno em pacientes mais jovens que essa idade apenas nos casos em que os sintomas estiverem presentes por mais de 1 ano.
Se cada pessoa é única e tem seu jeito especial de ser, como a personalidade de alguém pode ser um transtorno?
O DSM-5 explica que transtornos de personalidade acontecem quando as características de personalidade do paciente se mostram de forma pouco funcional:
- Quando geram sofrimento, prejuízos e até riscos
- As características do transtorno são duradouras e persistentes, afetando diferentes tipos de situações
- Características que se desviam de forma consistente daquilo que se espera (social e culturalmente)
- O padrão de personalidade deve afetar duas ou mais das seguintes áreas: cognitiva (como a pessoa percebe e interpreta a realidade, a si mesma, as outras pessoas…), afetiva (intensidade das emoções, mudanças emocionais frequentes…), relações interpessoais e o controle de impulsos.
- As características precisam estar presentes desde a adolescência ou início da vida adulta
Diagnosticar um transtorno de personalidade é algo bastante sério e o profissional sempre deve ter o máximo de cuidado para avaliar os sintomas e diferenciá-los de outros possíveis transtornos (cuja conduta clínica e evolução podem ser bastante diferentes).
Finalizando…
A personalidade é algo que inclui diferentes fatores internos e que interfere de maneira decisiva na forma como nos comportamos, percebemos a realidade e a nós mesmos, na maneira como interagimos, como nos expressamos e vivenciamos as diversas situações da vida.
Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:
CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. O que é personalidade?; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/12/06/o-que-e-personalidade/> Acesso em 14 de dezembro de 2022.
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Movimento Pausa Inspiradora

Vocês sempre ouvem a gente falar aqui na Inspirati sobre a importância das pausas. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, não é preguiça nem procrastinação: fazer pausas é fundamental para manter a saúde mental.
Benefícios de fazer pausas:
- Redução do estresse e ansiedade (e de tudo que eles trazem para o dia a dia)
- Protege a saúde mental
- Melhora a produtividade (o cérebro descansado e menos sobrecarregado funciona melhor)
- Favorece a atenção, a concentração, a memória e aprendizagem
- Melhora o controle inibitório do cérebro, ou seja, reduz a impulsividade
- Melhora a criatividade e a capacidade de pensar em novas soluções
- Descanso ativo – aquele em que a gente faz algo que gosta, ao invés de só ficar jogado no sofá olhando para alguma tela…
- Ganha tempo de qualidade para si
- Melhora o equilíbrio emocional
- Descanso ocupacional e redução dos riscos de lesão por esforço repetitivo: a pausa te permite tirar os olhos da tela, levantar, se movimentar, alongar…
- É mais fácil manter uma rotina equilibrada e ter disciplina nos nossos hábitos quando sabemos que teremos pausas e atividades mais leves
- Aumento da reserva cognitiva – entenda aqui: Lazer e Saúde Mental
- Sabe a leitura que você quer fazer, mas não tem tempo, o amigo que você quer conversar mas nunca dá certo, o novo hábito que gostaria de ter mas não encontra o momento? Então… a pausa pode ajudar também nisso, ou seja, a ter tempo de qualidade para você e para aquilo que faz sentido no seu processo
- Dão colorido para a vida: é nas pausas que encontramos aquilo que nos preenche, que nos dá entusiasmo e inspiração para seguir em frente
A Pausa Inspiradora
Pensando em tudo isso, viemos aqui hoje compartilhar uma ideia especial: a Pausa Inspiradora. Muitos de nós crescemos ouvindo que estudos e trabalhos são prioridades: “Só pode brincar quando terminar tudo. Só pode fazer atividade física, socializar com os amigos ou brincar com o filho quando não tiver outras pendências. Semana de provas não é época de ver aquele filme ou ler aquele livro só para relaxar.”
Lógico que isso é importante, mas a parte mais fundamental da nossa vida é a gente mesmo. O tempo passa depressa e a vida é preciosa demais para ser vivida com tanto atropelo!
A Pausa Inspiradora é um movimento que veio trazer mais leveza e autocuidado para o dia a dia. E tudo que você precisa é estar presente no seu momento especial com você mesmo.
Como funciona
Todos os dias, você faz uma pausa. Ah, 5 minutinhos também valem e garanto que já faz diferença. Vamos combinar que, organizando e planejando certinho, quase todo munto tem 5 minutos, né?
Durante essa pausa, faça algo que gosta, que te ajude a relaxar e a refrescar a mente. Pode ser algo mais elaborado ou tão simples como olhar o céu, fazer uma caminhada, ter uma conversa com um amigo, fazer uma leitura leve por alguns minutos, meditar, tomar sol, tomar um suco… Se forem atividades em que a gente age ao invés de só assistir, melhor ainda.
A ideia é compartilhar este momento especial com a hashtag #pausainspiradora. Assim inspiramos mais e mais pessoas a se cuidarem, a fazer pequenas pausas no corre corre e a viver uma vida que faz sentido para si mesmo.
Vou passar a compartilhar minhas pausas lá no Instagram com a hashtag #pausainspiradora. E você está mais do que convidado a fazer o mesmo! Vou amar ver o que vocês fazem nas pausas e saber que estão se cuidando e vivendo uma rotina inspiradora.
Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:
CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Movimento Pausa Inspiradora; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/11/29/movimento-pausa-inspiradora/> Acesso em 01 de dezembro de 2022.
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Técnica Pomodoro: facilitando os estudos

Vamos de atividade prática, bem mão na massa?
O método pomodoro foi criado em 1988 pelo italiano Francesco Cirillo. O nome é uma referência aos cronômetros de cozinha em forma de tomate (‘pomodoro’, em italiano), muito em uso na época.
É uma técnica bem simples de aplicar para melhorar a motivação, o foco e a concentração numa tarefa, diminuindo distrações, ansiedade e procrastinação. Você pode usar para estudar, para leituras, e até para tarefas que exigem certa determinação ou que a gente acaba procrastinando, como organizar um armário ou fazer um planejamento.
Você vai precidar de:
- Um relógio com alarme – sim, pode usar o alarme do celular
Na prática…
- Faça a tarefa por 25 minutos
- Se distraiu? Acontece, retome a tarefa
- Depois dos 25 minutos de tarefa, faça 5 minutos de pausa. Pode aproveitar para se alongar ou se movimentar, mexer no celular, conversar com um amigo ou o que tiver vontade
- Retome a tarefa. A ideia é intercalar 25 minutos de tarefa focada e 5 de pausa
- Depois de 4 ciclos de 25 minutos focados, a pausa é de 30 minutos!
- E recomeça com os 25 de tarefa e 5 de pausa…
Em resumo:
Programe seu alarme assim: 25 de foco – 5 de pausa- 25 de foco – 5 de pausa – 25 de foco – 5 de pausa – 25 de foco – 30 de pausa
Por que isso funciona?
Nosso cérebro pode ter dificuldade para lidar com atividades sem saber até quando algo não tão agradável pode durar. Fica muito mais leve focar quando a gente sabe que é só por 25 minutos, não até sei lá quando…
Da mesma forma, as pausas são importantes para manter a produtividade e a atenção.
Além disso, é bem diferente lidar com um limite rígido, do tipo “não pode mexer no celular até acabar tudo!” ou com uma regra mais maleável, como “pode mexer no celular, sim: na sua pausa, a cada 25 ninutos!”
Você pode gostar também:
- Tipos de memória
- Dicas para melhorar a memória
- Como manter o foco nas nossas metas
- Como evitar a procrastinação
- Como o cérebro adota um novo hábito
- Tudo Sobre: TDAH
Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:
CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Técnica Pomodoro: facilitando os estudos; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/10/26/tecnica-pomodoro…tando-os-estudos/> Acesso em 26 de outubro de 2022.
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Tudo Sobre: TDAH

Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) foi o tema escolhido na enquete do Instagram para este Tudo Sobre. Vem com a gente, vamos nos aprofundar nisso com base nas perguntas que o pessoal do Insta enviou na caixinha de pitacos!
Para começar: o que é atenção?
A atenção é uma função neuropsicológica. Podemos defini-la como a consciência direcionada para um foco, a concentração da atividade mental direcionada a algo.
Parece simples, mas quando prestamos atenção em algo, isso envolve perceber diferentes tipos de estímulos, selecionar o foco, filtrando, ou seja, deixando de lado estímulos sem relação com a tarefa (os chamados distratores). Ex.: ao conversar com um amigo em um café, nos deparamos com uma infinidade de estímulos diferentes, como a fala do amigo, sons do ambiente, estímulos visuais, pessoas ao redor, aromas, o sabor do café e até mesmo os nossos próprios pensamentos e sentimentos. Estar focado na tarefa (a conversa) envolve diminuir a atenção que damos a todos esses outros estímulos.
Além disso, existem diferentes tipos de atenção. Não se trata de saber o “seu” tipo, todos nós temos todos eles e os usamos com mais ou com menos facilidade, conforme as tarefas e os estímulos que chegam até nós. Vamos a eles:
- Atenção sustentada: capacidade de manter o foco em tarefas mais longas ou repetitivas, inibindo. Ex.: ler este artigo até o final
- Atenção concentrada: capacidade de se concentrar numa atividade ignorando todos os demais estímulos – visuais, auditivos, táteis… Ex.: se concentrar na leitura deste artigo, mesmo que seu sapato esteja desconfortável
- Atenção seletiva: é a concentração das diferentes funções neuropsicológicas direcionadas para uma só atividade, a capacidade de manter o foco no estímulo/tarefa, mesmo quando outros estímulos surgem. Ex.: ler este artigo até o final numa sala compessoas conversando
- Atenção alternada: alternar a atenção entre tarefas diferentes, porém sem perder o foco. Ex.: ler este artigo, atender a uma ligação e retomar a leitura sem “se perder”
- Atenção dividida: capacidade de manter a atenção em duas tarefas simultâneas, por exemplo, ler este artigo enquanto escuta música – mas, é importante destacar: o que acontece na realidade é uma rápida alternância entre tarefas, dando a impressão de ter dois focos simultâneos
O que é o TDAH?
O TDAH é um transtorno global do desenvolvimento, ou seja, é um transtorno que se inicia na infância e cujas características tendem a acompanhar o paciente ao longo da vida, mostrando-se em diferentes setores do dia a dia. Embora algumas características do TDAH possam entrar em remissão (“melhorar”) conforme a criança cresce e o sistema nervoso amadurece, é comum que o TDAH persista no decorrer da vida adulta.
A principal característica do TDAH é uma dificuldade intensa no manejo da atenção, com desorganização e comportamentos impulsivos, hiperativos. Tanto a desorganização quanto a impulsividade e a hiperatividade são pontos importantes do TDAH, pois dificultam o processo de atenção – e a permanência da pessoa na tarefa.
Tipos de TDAH
Frente aos sintomas de TDAH, é possível perceber 3 subtipos desse transtorno, de acordo com a apresentação dos sintomas (vai ter listinha de sintomas neste artigo, mais para frente!). Ao avaliar o paciente e atribuir o diagnóstico de TDAH, é muito importante que o profissional especifique se o transtorno é de:
- Apresentação predominantemente desatenta: neste caso, ganham destaque os sintomas de desatenção e de dificuldade para manejar o foco da atenção. Sintomas hiperativos até podem estar presentes, mas de forma mais suave.
- Apresentação predominantemente hiperativa/impulsiva: aqui acontece o oposto, ou seja, nem sempre existe tanta dificuldade no manejo da atenção, mas o paciente apresenta alto grau de impulsividade, agitação e comportamento hiperativo.
- Apresentação combinada: ambos os tipos de sintoma, ligados à atenção e à hiperatividade, se apresentam em intensidades parecidas, sem que um ou outro ganhem maior destaque.
Importante: para determinar o subtipo de TDAH se considera os sintomas predominantes nos últimos 6 meses. Isso significa que, conforme a fase, conforme o crescimento, amadurecimento e envelhecimento, os sintomas de TDAH podem vir a se apresentar de maneiras diferentes no mesmo paciente.
TDAH com sintomas leves, moderados, graves ou em remissão
De acordo com o DSM-5, os sintomas de TDAH podem estar em três níveis de intensidade. Quanto mais intensos, maiores as dificuldades que o paciente enfrenta.
Além disso, como veremos mais à frente, conforme o paciente cresce e o cérebro amadurece, ou conforme a medicação e os tratamentos fazem efeito, alguns sintomas podem ficar mais e mais leves, e mesmo chegar à remissão. Lembramos que TDAH não tem cura. Por isso, da mesma forma, em fases mais atribuladas, em momentos desafiadores, ao parar o tratamento de forma não indicada ou conforme o envelhecimento, pode acontecer de alguns sintomas voltarem ou se intensificarem.
Todo mundo que se distrai tem TDAH?
Não. É normal se distrair de vez em quando, isso acontece com todas as pessoas. Distração é diferente de déficit.
A distração acontece quando o estímulo distrator nos parece muito mais interessante ou muito mais intenso que a atividade.
Por exemplo, imagine um adolescente estudando enquanto escuta música e, de repente, toca a música preferida. Ou ainda, alguém que está concentrado num filme quando escuta um barulho muito alto em outra parte da casa – e provavelmente a reação seria ir ver o que aconteceu, deixando a atividade/o filme de lado. Obviamente, existem grandes chances das pessoas destes exemplos não terem TDAH, pois são reações comuns, que não dificultam nem impedem o uso da atenção de forma geral.
Além disso, a tendência é que em certas condições, as distrações sejam mais frequentes – sem que isso implique em TDAH. Por exemplo, quando já estamos cansados da tarefa e precisamos de uma pausa, quando dormimos mal, quando outras questões absorvem nossa atenção – ex.: uma criança cuja família está com algum tipo de conflito e, envolvida nisso, passa a ter mais dificuldade para prestar atenção na escola.
Porém, se as distrações são muito frequentes ou ainda se existe dificuldade maior do que o esperado para retomar a atenção depois de alguma distração, é importante procurar um profissional para ver se está tudo bem.
Quais os sinais e sintomas de TDAH na criança?
- Hiperativo e irrequieto, a criança geralmente é mais agitada do que se espera
- Dificuldade para permanecer sentado por muito tempo
- Barulhento: grita, fala alto, faz sons altos nas brincadeiras (imitando o som so carrinho, por exemplo, em tom alto, mais intenso)
- Emoções intensas
- Agressividade e explosões de raiva
- “Teimosia”, rigidez ao ter de fazer as coisas de outra forma ou em outro momento
- Baixa tolerância a frustração
- Reage de forma impulsiva, sem pensar, a provocações, críticas ou rejeição
- Pode ter atrasos no desenvolvimento motor ou da linguagem
- Propenso a acidentes
- Desajeitado com os movimentos: derruba as coisas, quebra algo por acidente…
- Distrai-se facilmente (mais perceptível com o início da vida escolar)
- Dificuldade de organização – quarto bagunçado, material escolar e caderno desorganizados
- Perder ou constantemente esquecer seus pertences
- Dificuldade para esperar sua vez – numa fila, numa brincadeira, na hora de falar ou ouvir…
- Responder impulsivamente, antes da pessoa terminar a pergunta
- Deixa as atividades escolares e lição de casa incompletos
- Comete erros por falta de atenção, erra coisas que já sabia
- Pode ter dificuldades escolares
- Dificuldade de relacionamento com os colegas tende a aumentar conforme a infância avança
- Curioso e criativo
- Tendência a sintomas gastrointestinais, como dores abdominais, incontinência e alergias alimentares
- Pode ficar hiperfocado em atividades que gosta e ter dificuldade de pará-las para iniciar outra tarefa – ex. deixar de brincar para fazer a lição de casa
Em pré-escolares, tendem a predominar os sintomas de hiperatividade – o cérebro das crianças nessa fase é mais imaturo, por isso, geralmente os sintomas de desatenção tendem a não ser percebidos, enquanto os de hiperatividade dificilmente são significativos, afinal, não é mesmo esperado que uma criança pequena mantenha a atenção e concentração por períodos longos ou que fique sentada por mais tempo. Por isso, em crianças mais novinhas, o mais indicado é observar e acompanhar, rastreando essas características, fazendo as intervenções e terapias necessárias, mas fechando o diagnóstico apenas com o início da vida escolar.
Quais os sintomas de TDAH no adolescente?
- Agitação
- Dificuldade para permanecer sentado por muito tempo, pode estar sempre balançando os pés, batucando na mesa, mexendo as mãos…
- Desorganização – no ambiente, com o material escolar, nas anotações de aula…
- Dificuldade de seguir rotinas
- Imaginativo, sonha acordado
- Pensamento acelerado
- Falta de motivação – precisa de lembretes e estímulos constantes
- Também pode ficar muito interessado e entusiasmado sobre algo e logo perder o interesse
- Comportamentos de risco, busca por estímulos diferentes e intensos
- Propenso a acidentes – tropeçar, quedas, esbarrar nas coisas…
- Dificuldade de orientação espacial
- Pode apresentar atraso escolar
- Cuidado com abuso de álcool/drogas
- Pode ter mais problemas disciplinares que os outros jovens, desafiando autoridades (pais, professores…) e deixando de lado as regras
- Emoções intensas
- Flutuações de humor: euforia, irritação, raiva…
- Baixa tolerância a frustração
- Reage de forma impulsiva, sem pensar, a provocações, críticas ou rejeição
- Baixa autoestima
- Entedia-se com facilidade e pode ter dificuldade para lidar com o tédio
- Dificuldades de relacionamento com os colegas: atenção a casos de bullying (tanto como vítima quanto como fazer bullying com algum colega), pode assumir para si o papel do “engraçadinho” do grupo para tentar ser aceito, dificuldade para manter as amizades e relacionamentos
- Falar demais, depressa, pode monopolizar a conversa num grupo ou dizer coisas sem se dar conta do efeito que seu comentário teve na outra pessoa, interromper o outro, responder antes de terminar de ouvir a pergunta…
- Pode ter desempenho escolar mais baixo que sua real capacidade, seja por cometer erros por falta de atenção, perder prazos das tarefas, ter dificuldade para se organizar para estudar, para gerenciar o tempo numa avaliação…
- Dificuldade para deixar de lado uma atividade da qual gosta para fazer outra tarefa – ex. sair do celular e ir estudar, mesmo que tenha prova amanhã
- Entediar-se com facilidade e ter dificuldade para lidar com o tédio
- Procrastinação, espera até o último momento para fazer uma tarefa
- Dificuldade para fazer planos
- Dificuldades para dormir, insônia e tendência a “trocar” o dia pela noite
- Tendência a sintomas gastrointestinais, como dores abdominais, incontinência e alergias alimentares
- Tende a ser um jovem dinâmico, criativo e curioso
Adulto com TDAH? Quais os sinais e sintomas?
É comum existirem adultos que só recebem o diagnóstico tardiamente, em especial quando crescem num ambiente familiar acolhedor e recebem algum apoio na escola. Muitas vezes os sintomas passam despercebidos em casos assim e o paciente passa a notar os sintomas e as dificuldades conforme a vida se torna mais complexa e conforme também perde os apoios de familiares, professores…
Importante: o TDAH tende a acompanhar o paciente ao longo da vida. Vamos ver como os sintomas se mostram na vida adulta:
- Desorganizado, tende a perder ou esquecer objetos e documentos, por exemplo
- Dificuldade de planejamento, com frequência inicia uma tarefa sem saber ao certo quais seriam os próximos passos ou sem saber bem quais as instruções
- Dificuldade de concentração
- Dificuldade de orientação espacial
- Propenso a acidentes – tropeçar, quedas, esbarrar nas coisas…
- Dificuldade para permanecer sentado por muito tempo, pode estar sempre balançando os pés, batucando na mesa, mexendo as mãos…
- Pensamento acelerado
- Dificuldade para seguir rotinas
- Desempenho nas tarefas tende a ser mais baixo do que suas reais capacidades
- Não termina tarefas que se propõe a fazer
- Dificuldades para gerenciar o tempo
- Atrasos – ou, para evita-los, pode tentar chegar muito antes do horário
- Perder prazos – nos estudos ou trabalho, no vencimento de contas e boletos, etc.
- Pode ter dificuldade para compreender o que leu numa primeira leitura ou para fazer cálculos de cabeça, por exemplo
- Dificuldade para lembrar de algo que viu ou ouviu
- Procrastinação, adia as tarefas até o último momento
- Impulsividade, ao fazer escolhas, planejar algo ou reagir a algum estímulo, o faz de forma impulsiva, sem considerar experiências anteriores ou prever consequências, sem pensar no longo prazo
- Comportamento de risco em busca de estímulos mais intensos, por exemplo, dirigir em alta velocidade
- Pode ter dificuldade para permanecer em empregos, seja saindo de forma impulsiva, perdendo prazos e oportunidades, seja apresentando desempenho menor do que sua verdadeira capacidade
- Dificuldades de relacionamento com amigos e/ou cônjuge – Pode ter dificuldade para prestar atenção na fala do outro, interromper, responder antes da outra pessoa concluir a pergunta, perder o interesse, falar sem parar e sem se dar conta do efeito daquilo que diz nas outras pessoas, por exemplo
- Fala bem, pode seguir emendando um assunto no outro
- Diminuição da memória de trabalho – entenda aqui sobre tipos de memória
- Dificuldade em parar uma tarefa da qual gosta muito ou está muito envolvido
- Mudanças de humor e intensidade emocional podem acontecer
- Dificuldades nas finanças, seja para organizá-las, para pagar as contas no prazo ou mesmo com compras por impulso
- Dinâmico e criativo, tende a fazer várias coisas ao mesmo tempo
- Pode ter ótimas ideias e, ao mesmo tempo, ter muita dificuldade de colocá-las em ação, especialmente se envolvem muitos passos
- Cuidado com a sobrecarga de tarefas: tende a se envolver em muitas atividades e projetos que parecem interessantes, sem pensar se consegue leva-los até o fim, cumprir os prazos, etc.
- Muito sensível ao estresse, atividades e situações comuns da vida adulta podem ser fonte de estresse
- Ao se deparar com dificuldades, situações ou tarefas complicadas, pode reagir com desespero e falta de confiança, vendo a situação como impossível antes mesmo de tentar resolver
- Entediar-se com facilidade e ter dificuldade para lidar com o tédio
- Baixa tolerância a frustração
- Reage de forma impulsiva, sem pensar, a provocações, críticas ou rejeição
- Dificuldades para dormir, insônia e tendência a “trocar” o dia pela noite
- Tendência a sintomas gastrointestinais, como dores abdominais, incontinência e alergias alimentares
- Impaciência para esperar, especialmente se o ritmo da outra pessoa for mais lento que o seu
Características podem se mostrar de forma diferente nas mulheres
Além das características que já apontamos, as meninas e mulheres com TDAH podem apresentar outras, ou vivencia-las de maneira diferenciada. Vale destacar que várias dessas diferenças acontecem por questões socioculturais, pela maneira como as meninas são educadas e pelo tipo de comportamento que o meio social espera das mulheres. Vamos a algumas diferenças:
- Tendem a fazer mais esforço para se adaptar a situações que, devido ao TDAH, podem ser desafiadoras. Com isso, pode haver maior dificuldade para se notar alguns sintomas, da mesma forma que o nível de cansaço e sobrecarga das meninas e mulheres pode ser mais intenso
- Maior risco de apresentar comorbidades, pelo fato de tenderem a interiorizar mais que os meninos/homens suas frustrações, sobrecarga e dificuldades
- Geralmente o tipo de TDAH predominante no sexo feminino é o de desatenção
- As mudanças hormonais ao longo do ciclo menstrual pode intensificar alguns sintomas em certos momentos, o que muitas vezes é sentido como uma TPM mais intensa
- Falar bastante, pode emendar um assunto no outro sem concluir o primeiro, monopolizar a conversa num grupo, interromper as outras pessoas…
- Distrair-se durante uma conversa, atividade, leitura, a menos que seja um grande foco de interesse
- Sobrecarregada de tarefas, sente que nunca vai dar conta de tudo, cansaço constante e desmotivação
- Começar muitos projetos e atividades, mas ter dificuldade em terminá-los ou se sobrecarregar muito – seja por todos eles parecerem interessantes no início, seja por dificuldade em gerenciar as atividades, por impulsividade e mesmo por dificuldades de negar participações e convites
- Esquecer prazos e datas importantes
- Desorganização – no ambiente, nos cadernos, com os próprios pertences, com as finanças…
- Dificuldade para gerenciar o tempo, atrasos…
- Sentir-se indecisa e, após algum tempo, tomar uma decisão por impulso
- Problemas para manter amizades
- Emoções são vivenciadas de forma mais intensa
- Tendência a sintomas gastrointestinais, como dores abdominais, incontinência e alergias alimentares
- Mascarar sintomas, suprindo as dificuldades com outras atitudes (às vezes impulsivas), ex.: não encontrar algo e, ao invés de procurar, ver se esqueceu em algum lugar, simplesmente compra outro
Pela tendência a interiorizar frustrações, tentar se adaptar e não demonstrar tanto a hiperatividade, muitas mulheres são diagnosticadas tardiamente, na vida adulta. Ou, pior ainda, recebem diagnósticos errados. Com isso, os prejuízos do TDAH na vida da paciente tendem a aumentar.
Idosos: envelhecendo com TDAH
Um dos maiores desafios atuais sobre idosos com TDAH atualmente é o fato da maioria não ter sido diagnosticada, ou ter apenas recebido o diagnóstico tardiamente.
De forma geral, as características são as mesmas dos adultos. Vamos ver algumas particularidades:
- Idosos que nunca receberam diagnóstico podem passar a se preocupar muito com distrações e esquecimentos, geralmente chegam aos consultórios com receio de estarem desenvolvendo algum tipo de demência. Os sintomas de TDAH podem ser fonte de angústia intensa para os idosos
- Atenção especial à fase de aposentadoria. Muitas vezes os sintomas de TDAH podem se intensificar quando o paciente “perde” aquela rotina mais estruturada, que ajudava a organizar o tempo e o dia a dia
- Atenção à saúde dos idosos com TDAH: é importante lembrar de beber água, tomar os remédios certos no horário certo (caso façam uso), comparecer às consultas e tratamentos sempre que necessário; atenção a problemas metabólicos (TDAH + problemas metabólicos = maior vulnerabilidade para demências)
- Podem apresentar lapsos de memória
- A hiperatividade pode se mostrar tanto no comportamento quanto numa sensação intensa de inquietude
- Sentimento de inadequação e de incapacidade
- Fala impulsiva (“sem filtro”), interrompe o outro
- Tendência a sintomas gastrointestinais, como dores abdominais, incontinência e alergias alimentares
Enquanto isso, no cérebro…
Tudo aquilo que fazemos ou vivenciamos tem um correlato cerebral. Ou seja, algo acontece no nosso cérebro enquanto fazemos o que fazemos e sentimos aquilo que sentimos. E nos transtornos mentais não é diferente. Por isso vamos ver agora como atua o cérebro no TDAH.
Explicando de forma breve, quando percebemos um estímulo em que precisamos prestar atenção, o cérebro ativa áreas do córtex pré-frontal. No TDAH, essa ativação não ocorre (ou acontece de forma diferente do esperado). Neste momento, a hipótese que melhor explica essa não ativação é ligada às alterações nos níveis de duas substâncias produzidas pelo nosso organismo: a dopamina e a noradrenalina.

Córtex pré-frontal destacado na imagem. Essa área está relacionada a grande parte das funções cognitivas. A dopamina é um neurotransmissor relacionado à sensação de prazer, satisfação e motivação. Ela também ajuda a levar informações do cérebro para o corpo, atuando no comportamento motivado para a busca de recompensas, nos movimentos, apetite, sono, emoções e humor. Também está ligada à cognição, atuando em funções como a atenção, memória e aprendizagem.
Já a noradrenalina é um neurotransmissor ligado à redução do estresse – ela é a antagonista da adrenalina, ou seja, enquanto a adrenalina nos mantem muito alertas, pronto lara uma reação de luta ou fuga frente a um perigo ou desafio, uma descarga de noradrenalina reduz essa sensação, acalmando o organismo. Também está ligada à memória, criatividade e aprendizagem. Atua ainda no humor, sono e alimentação. É vasoconstritora, isto é, a ação da noradrenalina “aperta” os vasos sanguíneos, regulando a pressão arterial, além de atuar no sistema cardiovascular.
Quando esses dois neurotransmissores caem, um dos efeitos sentidos são as dificuldades de aprendizagem, distrações, hiperatividade, comportamentos por impulso… típicos do TDAH. Além disso, essassubstâncias atuam nas sinapses (a conexão entre os neurônios). Por isso, a queda afeta diretamente as redes neurais, dificultando, mais uma vez, os processos de atenção, memória, planejamento, controle inibitório…
Importante destacar: além do que descrevemos, a imaturidade do cérebro também pode estar por trás dos sintomas de TDAH em crianças. Por isso, é comum que conforme o paciente cresce e o cérebro amadurece, alguns sintomas fiquem menos intensos e mesmo desapareçam (lembrando que isso não se aplica a todos os casos).
TDAH e intestino
Cérebro e intestino são dois órgãos muito mais ligados do que se poderia imaginar – entenda melhor neste artigo
Como vimos no ponto anterior, o TDAH desequilibra os níveis de dopamina. Com isso, a troca de informações cérebro-corpo fica prejudicada. Além disso, quando a microbiota está equilibrada, é produzida uma enzima no intestino (CDT) que ajuda o organismo a produzir dopamina – o que tende a acontecer de forma alterada no TDAH.
Por consequência, se o intestino e a microbiota não vai bem, os sintomas de TDAH também tendem a piorar os sintomas de TDAH. Inclusive, isso pode trazer sintomas de depressão, ansiedade, insônia e confusão mental.
TDAH e sono
Estima-se que mais de 56% dos pacientes com TDAH têm algum distúrbio do sono, incluindo as crianças e adolescentes. Alguns distúrbios mais comuns em quem tem TDAH:
- Insônia: um ponto frequente é que, mesmo estando cansados e indo cedo para a cama, o paciente demora a adormecer
- Dificuldade para acordar: Da mesma forma, mesmo dormindo a quantidade de horas recomendada para a faixa etária, muitos pacientes se queixam de acordar cansados, do sono não ter sido reparador
- Distúrbio do ciclo circadiano: as alterações nos níveis de melatonina (hormônio ligado ao ciclo sono-vigília, entre outros fatores) levam o organismo a sofrer com alterações no ritmo de sono
- Em adultos e idosos, um distúrbio do sono que chama a atenção e que deve ser tratado caso se apresente é a apnéia do sono.
Distúrbios do sono são esperados nesses pacientes, tanto pelas alterações em níveis de melatonina e dopamina, quanto por fatores como aumento do estresse, sintomas de ansiedade, sintomas hiperativos… Esses distúrbios precisam ser investigados e tratados, pois infelizmente os sintomas do TDAH tendem a piorar com o sono de má qualidade. Além disso, ter um sono saudável é importantíssimo para uma boa saúde física e mental.
Aprenda mais sobre sono e higiene do sono neste artigo
TDAH, relacionamentos e sexualidade
Como vimos, o TDAH é um transtorno que se mostra nas diferentes áreas da vida. Nos relacionamentos a situação não é diferente. Infelizmente muitos pacientes com TDAH podem ter dificuldade para manter amizades e relacionamentos amorosos. Vamos ver agora alguns sinais do TDAH se mostrando nos relacionamentos e na sexualidade:
- Dificuldade para manter o interesse pela pessoa por muito tempo – quando a fase da paixão passa e a rotina começa, a pessoa com TDAH pode se sentir entediada e desestimulada a seguir no relacionamento (queda nos níveis de dopamina, mais uma vez)
- Distrair-se durante conversas que não parecem interessantes, ou mesmo durante atividades que não despertam o interesse (por exemplo, quando o casal está assistindo um filme juntos)
- Impulsividade, tanto nas atitudes como em comentários (dizer coisas sem pensar antes se iria ofender ou soar mal para a outra pessoa)
- Dificuldade em ouvir o outro, seja por falar muito, interromper…
- Pode se mostrar muito impulsivo, reativo ou irritadiço quando se frustram ou durante uma discussão
- Tendem a exigir mais maleabilidade do parceiro(a), por exemplo, ao se esquecer de combinados, datas especiais, compromissos, etc.
- Desafios de comunicação entre o casal podem ser comuns
- Pode haver dificuldades para se manter focado durante a relação sexual
- Instabilidade emocional e de humor
- Quando cansado e frustrado, pode ter dificuldade para deixar o hiperfoco de lado e dar atenção ao parceiro(a)
- Libido variável, pode alternar momentos de muito desejo e de total indiferença
- Atenção a comportamentos de risco, como sexo sem proteção, corresponder aos interesses de alguém sem ter interesse…
Sobre hiperfoco no TDAH: “Por que meu filho com TDAH não presta atenção na aula mas fica super concentrado quando joga vídeo game?”
Como destacamos no início deste artigo, o TDAH não significa apenas distrações ou dificuldade de focar e de se concentrar. É isso, mas há também outras características do transtorno tão importantes quanto esta. Por isso, podemos considerar que no TDAH ocorre a dificuldade para gerenciar o foco da atenção e alterna-la de um estímulo para outro (deixar o video-game e ir fazer a lição de casa, por exemplo). Ou seja, é difícil prestar atenção em algo mas, também pode ser igualmente complicado deixar de lado algum estímulo, criando um hiperfoco.
O hiperfoco pode ser definido como um interesse muito intenso em algo. Quando alguém se dedica ao seu hiperfoco, pode acontecer de ficar tão envolvido na atividade que deixa de perceber estímulos do ambiente (como sons, alguém chamando, a passagem do tempo…) e mesmo estímulos internos (por exemplo, não percebe a sensação de fome ou sede, frio, desconforto…). O hiperfoco pode ser sobre qualquer tipo de assunto ou atividade.
O hiperfoco não é uma característica apenas do TDAH, ele também está presente em outros transtornos, como no autismo – confira aqui nosso especial Tudo Sobre: Transtorno do Espectro Autista
No entanto, o hiperfoco do TDAH pode ser bem diferente do hiperfoco no autismo. No autismo, o hiperfoco acontece por padrões de interesse restrito, pensamento rígido, apego à rotina – o hiperfoco traz aquela sensação confortável de estar frente a algo conhecido e previsível.
Já no TDAH, o hiperfoco tende a acontecer pela dificuldade em alternar o foco da atenção. Tende a ser muito mais fácil para quem tem TDAH se concentrar numa atividade ou assunto que desperta o interesse do que em outra que lhe parece desinteressante ou entediante.
Para fechar este ponto, cabe dizer que ter um hiperfoco não é algo totalmente ruim ou bom, é apenas uma característica entre tantas. Ele pode trazer dificuldades (como perda de prazos, deixar de lado outras tarefas que precisava fazer, prejuízos nos relacionamentos…) como também aspectos favoráveis, por exemplo, aprender muito sobre o assunto, reduzir o estresse e pode até vir a se tornar uma opção de carreira na vida adulta.
O paciente com TDAH pode ter comorbidades? Quais as mais comuns?
Sim. É comum que pacientes com TDAH apresentem outras condições de saúde física e mental. Em cerca de 70% dos casos, o TDAH não vem sozinho. Algumas das comorbidades mais frequentes:
- Compulsão alimentar
- Abuso de álcool e substâncias
- Distúrbios do sono
- Depressão
- Ansiedade
- Transtornos específicos de aprendizagem (ex.: dislexia, discalculia…)
- Transtorno de Oposição Desafiante (TOD)
- Transtorno de conduta
- Síndrome de Tourette (“tiques”)
- Síndrome de burnout
- Transtornos de personalidade (em adolescentes e adultos)
- Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC)
- Transtorno do Espectro Autista
- Asma
- Doença celíaca
- Enxaqueca
- Epilepsia
- Hipertensão
- Doenças cardiovasculares
- Epilepsia
- Enxaqueca
- Alterações na glândula tireóide
- Obesidade – adultos com TDAH têm cerca de 5 vezes mais chances de apresentar IMC>30
- Demência de corpos de Lewy – um quadro demencial marcado pela presença corpos de Lewy no interior de células nervosas, causando declínio cognitivo, alucinações visuais e sinais de Parkinson, mais comum após os 75 anos
- Ao longo do envelhecimento, pacientes com TDAH que também apresentam algum distúrbio metabólico podem ter maiores chances de desenvolver demências
Identificar e tratar as comorbidades é um ponto muito importante, melhorando a qualidade de vida e evitando que uma condição agrave a outra.
Diagnóstico diferencial: quais doenças ou transtornos podem ser confundidos com TDAH?
Diagnóstico diferencial é o processo que os profissionais da saúde usam para chegar ao diagnóstico, examinando, avaliando e investigando o quadro clínico do paciente para ter certeza de que se trata de certa doença e não de outra condição parecida que pode ser confundida. Lembrando que alguns destes diagnósticos podem ser comorbidades do TDAH, mas isso também precisa ser avaliado com cuidado. Por exemplo, um paciente que tenha TDAH e Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) não receberia o tratamento adequado se obtivesse apenas um destes diagnósticos. Da mesma forma, é preciso atenção para não subdiagnosticar o TDAH ou incorrer em erros diagnósticos. Alguns dos transtornos e condições que merecem atenção ao avaliar a possibilidade de um diagnóstico de TDAH:
- Transtorno de Oposição Desafiante (TOD)
- Transtorno explosivo intermitente
- Tourette
- Autismo
- Transtornos específicos de aprendizagem, como a dislexia
- Deficiência intelectual
- Transtornos de ansiedade
- Depressão
- Transtorno Bipolar
- Abuso de substância (a hiperatividade e/ou desatenção no TDAH não pode ser causada por abuso de drogas ou álcool)
- Transtornos psicóticos (não se diagnostica TDAH em pacientes enfrentando uma crise psicótica)
- Efeitos de medicação (não se diagnostica TDAH caso os sintomas estejam associados a efeitos colaterais de algum medicamento em uso pelo paciente – nestes casos, o mais indicado é relatar os sintomas ao profissional que receitou a medicação, para mudança, ajuste na dose ou a conduta mais adequada para o caso)
- Transtornos de personalidade (ao se realizar o diagnóstico de adolescentes e adultos), em especial Personalidade Borderline, Personalidade Narcisista ou Personalidade Antissocial
- Ao diagnosticar idosos, é recomendado realizar uma avaliação detalhada e cuidadosa para diferenciar TDAH e demências
Como o leitor mais atento pode perceber, um bom diagnóstico diferencial é fundamental para chegar ao diagnóstico correto e ajudar o paciente a receber o tratamento mais adequado. Em certos casos, esse processo pode envolver diferentes profissionais e especialistas.
Quem é mais propenso a desenvolver TDAH?
De acordo com o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição),
- Genética
- Parto prematuro, com peso baixo ao nascer (menor de 1,5kg)
- Ambiente durante a gestação: mães fumantes, abuso de álcool, infecções (ex. encefalite), exposição a neurotoxinas como o chumbo…
O DSM-5 destaca ainda que o ambiente familiar em que a criança convive no início da infância não está por trás do TDAH, porém pode influenciar a evolução dos sintomas e mesmo aumentar as chances de comorbidades (como ansiedade, depressão, envolvimento com álcool e drogas, comportamentos de risco…)
Como ajudar alguém querido que sofre de TDAH?
Esta foi a pergunta campeã na caixinha de sugestões do Instagram e isso me deixou bem feliz! Separei algumas orientações para diferentes contextos, sem esquecer de um trecho para a própria pessoa. Além destes pontos, sugerimos ler este outro artigo com dicas práticas de como apoiar alguém que está enfrentando um transtorno mental.
Orientações para familiares de alguém com TDAH
- Aprenda sobre TDAH e as comorbidades do seu familiar, isso vai facilitar muito a relação de vocês, tanto para lidar com alguns sintomas quanto para separar o que é característica da pessoa e o que é do TDAH
- Colocar-se no lugar da pessoa: acredite, a pessoa não faz certas coisas “de propósito”, e muitas vezes as distrações e esquecimentos são frustrantes, desconfortáveis e até constrangedoras para ela também
- Crie um ambiente de amor e acolhimento, permita que a pessoa se expresse e que vá no ritmo dela e, principalmente, mostre com atitudes e palavras que a pessoa não está sozinha
- Se possível, separem um cantinho de expressão: um lugar que pode se mexer à vontade, que pode sujar e pintar com tinta, que pode dançar ou fazer o que quiser. Mesmo que seja um cantinho no quarto da criança (que você pode colocar uma lona ou plástico grosso na hora de brincadeiras com tinta, barro…), essa possibilidade de expressão livre ajuda demais a direcionar a criatividade para algo produtivo, a desacelerar os pensamentos e até a melhorar a autoestima e autoconfiança
- Quando der uma instrução, fale com calma e uma coisa por vez, simplifique as tarefas. Por exemplo, ao invés de “arrume o seu quarto”, pode ser mais eficaz pedir um passo por vez: guardar os brinquedos, quando ele terminar, pedir para arrumar o material escolar na mochila, depois disso, pedir para guardar as roupas…
- Principalmente para os pais ou responsáveis de crianças e adolescentes com TDAH: lembre-se que o adulto da situação é você. Por isso, agir e reagir com responsabilidade, maturidade, empatia e amor faz toda a diferença – ensine com as suas atitudes.
- Incentive a seguir o tratamento certinho
- Repare se a criança respira pelo nariz. A respiração pela boca ativa áreas cerebrais diferentes da respiração pelo nariz – pelo nariz, a atenção e os processos de cognição tendem a ser ativados. Se sua criança/adolescente respira pela boca, procure um otorrino e uma fono.
- Motive e incentive sempre: a seguir com os estudos, a fazer e manter boas amizades, a ter projetos e a colocá-los em ação
- Criem uma rotina que seja prática e funcional para o contexto de vocês
- Não rotule, evite termos pejorativos. Ao invés disso, que tal destacar e incentivar aquilo que ele(a) tem de melhor?
Orientações para escolas, professores e educadores de alunos com TDAH
- Aprenda sobre o TDAH e seus efeitos na aprendizagem… mas também sobre os efeitos em outros contextos da vida
- Todos os dias, coloque na lousa ou num quadro qual vai ser a rotina, as atividades do dia, riscando o que terminarem. Isso ajudará seu aluno a perceber o todo, perceber em qual parte ele está, quais os próximos passos, e até mesmo a aprender a gerenciar o tempo
- Professores do Fundamental 2 ou Ensino Médio podem optar por escrever num canto da lousa a atividade ou conteúdo do dia
- Permita que ele se sente num lugar com poucas distrações, longe da janela e da porta, e mais para frente
- Permitir que o aluno se levante quando se sentir agitado e precisar se movimentar pode fazer toda a diferença – qual o problema de ver a aula em pé, se isso for ajudá-lo a se concentrar melhor?
- Garanta que ele entendeu as instruções da atividade e dê lembretes sempre que necessário
- Punir é uma péssima escolha: evite atitudes como deixar sem recreio ou sem algo que ele gosta por não ter feito a tarefa ou terminado a atividade – tirar esses momentos agradáveis vai desequilibrar ainda mais a dopamina, piorando os sintomas e reforçando a falta de confiança, de autoestima…
- Incentive sempre, estimule, motive… ele pode MUITO!
- Atitudes contra o bullying e de respeito às diferenças – afinal, todos temos pontos fortes e dificuldades
- Relacione as atividades e o conteúdo a algo que o aluno gosta, torne a experiência lúdica, pode incluir jogos, pequenas encenações, etc.
- As regras precisam ser objetivas e simples, por exemplo, “quando chegar, colocar o caderno de lição de casa na minha mesa e ir para o seu lugar”
- Pedir uma coisa por vez, simplificando a rotina
- Adapte as atividades, incluindo imagens e esquemas visuais dos pontos mais importantes
- Permitir tempo maior para as atividades
- Muitas vezes, menos é mais: é melhor um pouco menos de tarefa, que o aluno consiga cumprir, do que uma grande carga de uma vez. Por exemplo, ao invés de entregar tudo na sexta-feira, pode ajudar se pedir para ele metade para quarta e o restante para sexta
- Ensine-o a se organizar para estudar, a perceber pontos importantes, fazer resumos ou mapas mentais…
- Ensine-o a usar uma agenda escolar e/ou lista de tarefas
- Lembre sempre de atividades e eventos importantes ao longo do período letivo, por exemplo: “o trabalho é para o dia x”, “lembrem-se que semana que vem, dia x, é o dia de entregar o trabalho”, “na próxima aula é o dia de entregar o trabalho”…
Professor(a), lembre-se que seu papel é importantíssimo na vida do seu aluno(a). Você geralmente é o primeiro adulto que não é da família com quem a criança convive com mais proximidade, é a primeira figura de autoridade fora os pais/cuidadores. E isso vai muito além do conteúdo: ele vai levar você e a relação que construírem como referência. Por isso, seja inspiração. Você pode fazer a diferença nessa história de vida do jeito mais lindo possível!
“Na minha sala tem um menino com TDAH, como a gente pode ajudar ele?” – Orientações para colegas e amigos
Essa pergunta é de uma menina de 15 anos e chegou para a gente na caixinha de sugestões do Instagram. Ficamos super felizes por ver essa geração mais jovem tão empática, sensível e ligada na saúde mental, por isso preparamos algumas dicas com muito carinho. Vamos lá:
- Não façam bullying nem fiquem rindo das dificuldades do colega, mesmo que só por “brincadeira”. Geralmente as pessoas com TDAH se sentem super mal pelos sintomas, a autoestima pode ser baixa e essas brincadeiras realmente não ajudam em nada
- Incluam o colega! Não por ter um transtorno, mas por ser quem ele é. Conheçam ele melhor, com certeza ele tem várias características legais, afinal, ninguém se resume a um transtorno!
- Mas, ao mesmo tempo, evitem comentários sem necessidade na aula, em especial perto do colega. Assim, ajudam ele (e vocês também!) a se manter focado no conteúdo
- Pode ser que ele se esqueça de algo importante para vocês, como combinados ou datas de aniversários… não é de propósito – e provavelmente ele também ficou chateado por ter se esquecido. Isso não significa que ele não se importa ou que ele não gosta de vocês
- Sejam empáticos, ou seja, se coloquem no lugar do colega
- E lembrem-se que cada pessoa é única. Por isso, nada de supor! Pergunte sempre se ele precisa de ajuda e em que, ao invés de supor que precisa ou que não precisa.
Orientações para quem tem TDAH. Como deixar a rotina mais funcional?
- Crie um dia a dia que seja prático, que acomode suas necessidades e atividades
- Cuidado com o estresse, a ansiedade e o excesso de estímulos, eles podem piorar o TDAH
- Identifique os horários em que você costuma ter mais concentração e deixe as atividades mais importantes para este período
- Inicie seu trabalho ou estudo pelas tarefas mais urgentes
- Aprenda a dizer “não” e a respeitar seus limites
- Se você respira pela boca, procure um otorrino e uma fono. A respiração pelo nariz ativa áreas cerebrais diferentes, favorecendo os processos de atenção e aprendizagem
- Quando for estudar ou trabalhar, sente-se à mesa, com a coluna certinha. Assim o cérebro recebe mais oxigênio e a concentração melhora
- Seguir uma rotina mais rígida pode ser difícil. Tem coisas que precisam de um horário (como a aula ou trabalho, uma consulta…), mas outras não precisam! Afinal, tanto faz estudar às 3h ou às 5h se os dois horários estão livres, né? Por isso, tente pensar em sequências de atividades – ao invés de “estudar às 3h”, prefira “estudar quando terminar xxx”
- Aprender técnicas de estudo, tipo a técnica pomodoro, pode fazer grande diferença
- Inclua pausas nas suas atividades. Nessas pausas, aproveite para se movimentar ou fazer algo que gosta
- Tenha um mural de coisas muito importantes – pode ser o espelho, a porta da geladeira, um cantinho no quarto… Lá, coloque os lembretes mais importantes, como data de algo que precisa entregar, um aniversário que está perto, algo que acabou e você precisa comprar… Toda semana, tire aquilo que já foi e acrescente o que precisar
- Sobre organização: tenha uma agenda ou calendário e escreva lá apenas aquilo que envolve datas e horários. O que não precisa de data certa pode ficar numa lista de tarefas, que você vai riscando conforme cumpre
- Outra forma de se organizar é o método bullet journal, inclusive o criador do método também tem TDAH e criou essa alternativa por ter dificuldade para usar agendas tradicionais
- Se você usa medicamentos, coloque o alarme no celular com o nome e dose
- Para os adultos: ao invés de fazer a lista de compras de uma vez (e se esquecer de algo), tente deixar a lista num local visível sempre. E, conforme algo terminar ou você se lembrar de algo que precisa, acrescente lá
- Mais uma para os adultos: deixe todas as contas possíveis no débito automático e agende o pagamento dos boletos assim que eles chegarem
- Prepare suas coisas do dia seguinte à noite. Deixe o material escolar ou a bolsa do trabalho prontos, separe a roupa toda que vai usar, deixe o lanche ou almoço que vai levar separado na geladeira…
- Prefira estudar ou trabalhar num cantinho com poucos distratores: sem ser de frente para a janela, sem TV ou pessoas passando/falando, deixando na mesa só o que vai usar agora
- Tenha atividades para se expressar, desacelerar os pensamentos, esvaziar a cabeça. Por exemplo, artes, desenho, música, até escrever ou gravar um diário
- Estilo de vida saudável: alimentação equilibrada, sono, atividade física…
- Se for o caso, cuide para aprender a ouvir até o final, esperar a vez de falar e tentar entender o lado do outro
- Você tem um hiperfoco? Legal, não reprima! Separe no dia a dia momentos em que você pode se dedicar a ele livremente, principalmente em fases mais atribuladas – se você fica muito entretido, coloque alarmes no celular para lembrar de fazer pausas ou de mudar de atividade
- Abafadores de ruídos podem fazer grande diferença na hora de estudar ou de algum trabalho mais focado – neste artigo tem algumas dicas para escolher o seu
Procure ajuda profissional e siga sempre seus tratamentos do jeitinho que os profissionais que te acompanham indicarem.
Se você se identificou com as características do TDAH mas nunca recebeu este diagnóstico, é importante investigar, mesmo que você já tenha terminado os estudos, seja adulto, bem sucedido… Com o diagnóstico em mãos, é possível entender características e comportamentos, criar um dia a dia com mais leveza, tratar o que for necessário (neste momento e/ou dificuldades que podem surgir quando mais velho), lidar com essas características de um jeito mais leve e funcional.
Como é o tratamento?
O tratamento pode envolver diferentes profissionais e estratégias clínicas, conforme as necessidades de cada paciente, por exemplo:
- Medicação, sempre com acompanhamento médico
- Psicoterapia
- Reabilitação neuropsicológica (de funções como a atenção, a memória, o planejamento, controle inibitório…)
- Terapia ocupacional
- Fonoaudiologia
- Psicopedagogia
Entre colegas: orientações para profissionais da saúde
Alguns pontos importantes a observar em pacientes com TDAH:
- Diagnostico cuidadoso: o TDAH acompanha o paciente ao longo da vida, por isso é fundamental sempre checar a história de cada sintoma, além de fazer um bom diagnóstico diferencial, sondando comorbidades e descartando outras possibilidades
- Diagnóstico tardio: hoje em dia, com instrumentos de avaliação mais refinados e maior acesso à informação, é comum que adultos e até mesmo idosos nos procurem com suspeita de TDAH (seja após o diagnóstico de filhos ou netos, seja por ter se identificado ao receber informações sobre o assunto). É importante caprichar na anamnese e investigar em detalhes a fase escolar – como era na escola, quais dificuldades tinha, costumava fazer as tarefas, a professora pedia atenção com frequência, costumava perder seus pertences…?
- Em idosos: ainda mais atenção. Muitos sintomas podem ser confundidos com demência, por isso é fundamental checar a presença desses sintomas antes dos 12 anos e perguntar aos familiares se, quando mais jovens, apresentavam sinais típicos
- Acolha o paciente e a família. Receber diagnósticos nunca é algo fácil, mesmo quando existe uma suspeita. Em especial quando falamos sobre transtornos sem “cura”. Muitos medos sondam a família: ele vai acompanhar a escola? Vai conseguir entrar no mercado de trabalho? Manter relacionamentos saudáveis? É importante validar esses medos, porém informar que, com os apoios e tratamentos adequados, muita coisa é possível – diagnóstico não é fim, é recomeço.
- Ofereça informações sobre TDAH de forma acessível: sem jargões e termos técnicos, permita que o paciente e familiares se expressem, tirem suas dúvidas e perguntem livremente
- Orientar sobre higiene do sono e um estilo de vida saudável faz toda a diferença
Colegas, temos um grande poder nas mãos: o de mudar vidas, reduzir sofrimento e quebrar preconceitos. Vamos usá-lo bem, com ética, com amor ao próximo. Cuide bem do seu paciente, da forma como você gostaria que um colega cuidasse de um filho seu, dos seus pais, de alguém querido para você.
Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:
CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Tudo Sobre: TDAH; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/09/28/tudo-sobre-tdah/> Acesso em 23 de outubro de 2022.
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Dicas para melhorar a memória

Ela também impacta na noção que temos da nossa realidade e de nós mesmos. Por isso, é importante começar dizendo que:
“A memória não é um depósito”
Já dizia o saudoso neurologista Ivan Izquierdo (1937-2021), “a memória não é um depósito”, ao contrário do que muitas pessoas imaginam – pois é, não tem aquele arquivo de informações e lembranças… Mas então, o que é a memória?
Para definir de um jeito simples, memória é o processo neuropsicológico de trazer para a consciência algo que não está presente.
Então, quando desejamos melhorar a memória, a ideia não é entupir esse sistema com novas informações, e sim fortalecer e agilizar esse tipo de processamento de informações. Tem outro artigo aqui sobre neuropsicologia e tipos de memória. Mas vamos às dicas!
Se inspira na dica: como melhorar a memória?
- Alimentação equilibrada
- Atividade física
- Sono saudável, poucas noites mal dormidas já trazem impacto considerável em diversas funções como a memória, atenção, velocidade de processamento, inibição de impulsos… – aprenda aqui a fazer higiene do sono
- Atividades intelectuais, como leitura, cálculos, estudo, palavras cruzadas… ajudam em diferentes funções neuropsicológicas além da memória
- Conversas e interações sociais saudáveis
- Jogos de memória
- Escrever um diário
- Ver fotos antigas e contar sobre a ocasião – atividade especialmente boa para idosos
- Especial para os estudantes: explicar os conceitos e procedimentos que precisa estudar falando em voz alta da forma mais detalhada e simples que conseguir, usando suas próprias palavras, como se estivesse contando para um amigo que faltou a essa aula
- Antes de se deitar para dormir, lembre-se do que fez neste dia. Lembrar-se brevemente de conceitos antes de dormir também pode ajudar a fixá-los melhor, o cérebro consolida as memórias durante o sono
- Lembranças carregadas de emoções tendem a ser lembradas com mais facilidade e de forma mais detalhada. Por exemplo, entre as crianças, aquelas que se sentem mais acolhidas e queridas em casa e na escola, que tem uma relação tranquila com a família, a professora e os coleguinhas, tendem a aprender com mais facilidade
- Diversos transtornos podem trazer dificuldades de memória, como depressão, ansiedade, TDAH, demências… Por isso, vamos incluir nesta lista seguir certinho o tratamento recomendado, quando for o caso, combinado?
- Técnicas de redução do estresse – ele também traz piora na memória. Inclua pausas na sua rotina e procure ter um estilo de vida saudável
- O pensamento funciona por associação de ideias: um ponto, que lembra outro, que por sua vez lembra mais outro e outro… Por isso, pode usar esse processo a seu favor, criando você mesmo associações que facilitem recordar aquilo que precisa
- Use técnicas de planejamento e organização para facilitar sua rotina, pode ser uma agenda ou planner, listas de tarefas, lembretes na porta da geladeira, alarmes no celular…
- Mantenha o ambiente organizado
- A linguagem é a grande mediadora das funções neuropsicológicas. Por isso, narrar uma lembrança ou conceito é uma ótima forma de manter esse conteúdo vivo na memória (seja falando, pensando com palavras, escrevendo…)
- Dá um tempo do celular e na mania de fotografar tudo! Não estamos falando em deixar de tirar fotos e de guardar essas recordações, mas sim do excesso. Para um fato ser consolidado na memória, é preciso que a gente preste atenção a ele e às nossas reações, é preciso vivenciá-lo. Quando você tira foto de tudo o tempo todo, perde momentos: o foco da sua atenção é uma foto boa, e não o momento. Com isso, as memórias parecem superficiais, a vida não parece “tão boa”, surgem queixas de memória fraca
- Viver no presente. Esteja por inteiro nas situações que vivencia, se eduque a prestar atenção aos detalhes, aos sons, perfumes, sabores, tons, às suas emoções… Quanto mais detalhes você percebe aqui e agora, mais viva a memória.
Lembrando sempre…
- A memória é fundamental para o bom desempenho de diferentes funções neuropsicológicas e, da mesma forma, é profundamente ligada a essas outras funções, como a atenção, a percepção e a linguagem. Por isso, frente a queixas de memória, é importante que todas as funções sejam avaliadas com cuidado, para identificar com precisão onde está a dificuldade do paciente.
- Se a memória piorar muito ou “do nada”, é importantíssimo procurar ajuda profissional e fazer uma avaliação neuropsicológica
- É normal as lembranças sofrerem alterações com o tempo. Isso acontece porque não nos lembramos do fato original, e sim da última recordação que tivemos desse fato. Por isso, sempre que você conta algo que aconteceu ou explica um conceito, essa lembrança é “atualizada” no cérebro: ganha ou perde detalhes, muda os tons emocionais que associamos a ela, podem se tornar cada vez mais vivas ou mais distantes…
Lembramos ainda que as dicas deste artigo são não levam em consideração um quadro ou diagnóstico em especial – são para o público geral. Estas estratégias também não substituem psicoterapia, programa de reabilitação e outros tratamentos. Procure um neuropsicólogo para atividades, tratamentos e estratégias direcionadas especialmente para as suas necessidades.
Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:
CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Dicas para melhorar a memória; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/10/04/dicas-para-melhorar-a-memoria/> Acesso em 04 de outubro de 2022.
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Tipos de memória

A memória não é algo distante e que só acessamos para recordar o passado. Ao contrário! Usamos a memória o tempo inteiro e ousamos dizer que:
A memória é fundamental para a vida!
Sim, é muito mais do que lembrar conceitos escolares ou acontecimentos de um álbum de fotos empoirado. É graças a ela que podemos:
- Compreender o nosso passado, nos situando no tempo, no nosso contexto de vida
- Aprender – conteúdos escolares, mas também procedimentos e atividades da vida diária
- Adaptar-nos ao nosso contexto de vida e às novas situações
- Criar a manter hábitos
- Compreender aquilo que vivenciamos – antes da adaptação, vem a fase de perceber a realidade ou um estímulo e compará-lo: ao que já vivemos, ao que conhecemos, a relatos que ouvimos…
- Planejar e preparar o futuro: tanto num sentido mais filosófico, afinal, somos todos resultado de um processo que começou antes de nós mesmos; mas também num sentido mais pé no chão, por exemplo, recordar-se do aniversário de um amigo, da consulta que temos mais tarde, de pagar um boleto…
Temos vários tipos de memória e várias formas de definir esses tipos
A ideia aqui não é encontrar o “seu” tipo. Todos nós temos todos esses tipos de memória, e todos eles são importantes. Antigamente, as neurociências viam a memória como algo único, mas hoje já sabemos que não haveria sentido nisso. Afinal, cada tipo de memória envolve áreas e estruturas cerebrais diferentes e uma disfunção em cada um desses tipos teria um impacto diverso na vida do paciente.
Vamos ver alguns desses tipos:
1- Quanto ao tempo de armazenamento:
- Memória de curto prazo: últimos 30-40 segundos
- Memória de longo prazo: mais antiga que a anterior, informações e acontecimentos que foram consolidados, armazenados, por mais do que aquele primeiro momento. Nem tudo aquilo que vemos, ouvimos, aprendemos se torna memória de longo prazo, e essa perda de parte dos dados é normal. A memória de longo prazo também pode ser recente ou remota.
2- Memória de trabalho:
É um sistema de memória que mantém e manipula informações referentes ao desempenho de tarefas, procedimentos. É fundamental para o bom andamento de outras funções neuropsicológicas e de processos cognitivos complexos, como a compreensão da linguagem, a leitura, o raciocínio, desempenho de certas sequências de movimentos…
Quando a memória de trabalho não vai bem, o paciente tende a apresentar mais dificuldades em atividades cotidianas, maior dependência. Na clínica, se observa pior desempenho em testes de inteligência e aptidão.
3- Memória declarativa:
É o tipo de memória que nos permite recordar e expressar experiência, informações e conhecimentos sobre nós mesmos e sobre o mundo. Existem vários tipos e formas de classificação da memória declarativa:
a) Quanto ao tempo:
- Memória retrospectiva: ligada a acontecimentos passados, por exemplo, lembranças de infância, o que almoçou ontem, o que aconteceu no passeio do último fim de semana, o que aprendeu no curso…
- Memória prospectiva: ligada a acontecimentos futuros, como recordar-se da consulta de amanhã, lembrar-se que precisa ir ao mercado comprar algo que acabou, lembrar de tomar a medicação na hora certa, de devolver algo a um amigo…
b) Relativa ao contexto:
- Memória episódica: referente a nós mesmos, ao nosso contexto de vida. Pode ser retrospectiva (memória autobiográfica) ou prospectiva.
- Memória Semântica: relativa a conceitos, ao que aprendemos. Funciona como um grande mapa da realidade, um conjunto de referências – sobre o mundo concreto, sobre categorias de coisas/situações, significados de palavras, conceitos… Isso inclui tanto aquilo que aprendemos formalmente (na escola, num curso, lendo um livro) quanto na aprendizagem informal (do dia a dia, através das experiências, de experiências de outras pessoas, etc). Muito relacionada à percepção.
É normal as lembranças sofrerem pequenas alterações com o tempo
Isso acontece porque não nos recordamos do fato em si, mas da última vez em que acessamos esa lembrança. Por isso, sempre que recordamos ou contamos um fato, atualizamos essa lembrança na nossa memória – retirando ou acrescentando detalhes, alterando a intensidade emocional e até mesmo o tipo de emoção que ligamos a este fato.
Lembrou da psicoterapia? Falar sobre uma lembrança difícil vai muito além de desabafar! Ao contar, o paciente tem a chance e a ajuda do profissional para, com a escolha certa de palavras, alterar o padrão emocional que a lembrança carrega. Isso facilita o processamento dessas lembranças e a atribuição de novos significados e sentidos para os fatos que foram vivenciados, para aspectos da realidade e para planos futuros.
Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:
CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Tipos de memória; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/10/04/tipos-de-memoria/> Acesso em 30 de setembro de 2022.
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10 Passos para prevenção de suicídio

Suicídio é um problema de saúde pública e, infelizmente, é muito mais comum do que se imagina. Cerca de 96% dos casos de suicídio são relacionados às doenças mentais – em especial quando não são diagnosticadas e tratadas. A boa notícia: a maioria dos casos podem ser evitados com prevenção e manejo adequado.
Se inspira na dica: como podemos prevenir suicídio?
- Cuidar de transtornos mentais quando for o caso, com ajuda profissional, incluindo psiquiatra, psicólogo e outros profissionais da saúde conforme necessidade de cada caso. Siga sempre o tratamento como for recomendado pelos profissionais que te acompanham. Nunca mude ou pare o tratamento/medicamento por conta própria.
- Evitar ao máximo o consumo ou abuso de álcool ou substâncias. E, quando for o caso, buscar ajuda profissional para cuidar da dependência.
- Fazer psicoterapia, seja por sentir algum desconforto ou sintoma, por ter algum transtorno diagnosticado e até mesmo de forma preventiva. Quando temos a oportunidade de olhar para nós mesmos, nos conhecendo e refletindo sobre nossa história, nossos projetos e até sobre comportamentos e sentimentos, podemos perceber o que não nos faz bem, além de transformar algo que não tenha sido bem processado, levando a um estilo de vida mais assertivo e evitando futuros sintomas e transtornos. Psicoterapia é um tratamento tão poderoso que altera nosso cérebro – em sua arquitetura e neuroquímica. Veja aqui como é a primeira consulta de psicologia ou neuropsicologia.
- Combater e prevenir o bullying, o preconceito e qualquer tipo de violência e exclusão. As marcas ficam, perduram por muitos anos (inclusive quem sofreu bullying na infância ou adolescência pode apresentar maior vulnerabilidade a transtornos mentais como depressão e ansiedade, mesmo na vida adulta). É fundamental que vítimas e agressores recebam o tratamento adequado, sejam orientados e que atitudes sejam tomadas para respeitar as diferenças, para que todas as pessoas possam se sentir acolhidas e pertencentes. Inclusão não é favorzinho, é o mínimo do bom senso e do respeito à dignidade humana.
- Evitar o isolamento. Não significa evitar os momentos agradáveis de solitude, e sim saber que não estamos sós na vida. Ter com quem contar, a tão falada e tão rara “rede de apoio”. E isso não é apenas sobre buscar sua rede, sua galera, mas também sobre estar lá para quem precisa. Sabe aquele colega que ninguém fala com ele? A vizinha que anda meio sumida? Aquele amigo que talvez tenha dificuldade para manter contato (em certos transtornos isso pode acontecer)? A colega que está com problemas e se afastou de todos? Dá um “oi”, se interesse também por eles – talvez realmente não esteja acontecendo nada demais, mas talvez esteja, talvez sua presença faça diferença nessa história. Vamos cuidar uns dos outros, e isso pode começar de formas tão simples! Confira também: como apoiar alguém que está enfrentando um transtorno mental
- Proteger as crianças: sofrer violências, negligências, abusos e traumas graves são fatores de grande impacto na saúde mental dos pequenos (inclusive depois de crescerem). Criança entende, sim! Criança merece ter lugar, ser ouvida e respeitada. E é papel de toda a sociedade oferecer um ambiente digno, seguro e acolhedor para que elas cresçam e desenvolvam suas melhores potencialidades. Veja também nosso artigo sobre depressão infantil e este outro com ideias de brincadeiras sem tela
- Cuide da sua saúde com um estilo de vida saudável: alimentação equilibrada, sono em quantidade e qualidade adequados, beber água, tomar sol, fazer pausas ao longo do dia, tratar doenças, dores crônicas e outras condições quando for o caso.
- Relacionamentos saudáveis: mantenha por perto pessoas que te tratem com respeito e consideração. Nossos relacionamentos de todos os tipos (afetivos, amizades, familiares, com os colegas, vizinhos…) impactam a forma como percebemos a nós mesmos, e impactam junto a nossa saúde mental. Ah, e outra vez: trate de ser, você também, essa pessoa respeitosa e acolhedora para o próximo.
- Autocuidado e autoconhecimento: esteja com você mesmo de verdade. Cuide-se tão bem e respeite-se tanto quanto você faria com uma pessoa muito querida. Isso inclui, por exemplo, saber colocar seus limites de forma gentil e assertiva, fazer atividades que gosta, ter uma rotina saudável e equilibrada, cuidar do sono, ter projetos que te satisfaçam e colocá-los em ação… Veja aqui como cuidar da saúde mental na prática. Aqui no Portal Inspirati temos vários exercícios para se conhecer e se cuidar. Sugerimos começar por este
- Lazer! Ter momentos de lazer é fundamental para o equilíbrio do humor, redução do estresse e suas consequências e mesmo para o aumento da nossa reserva cognitiva (algo importantíssimo para um envelhecimento saudável e mesmo para se recuperar melhor em caso de transtornos, doenças mentais ou lesão cerebral). Lazer não é excessão na nossa rotina, nem coisa de gente à toa ou só para um momento ou outro. Lazer precisa ser estilo de vida! Entenda melhor sobre isso aqui
Saúde é coisa séria! Nunca espere para procurar ajuda profissional. Se você acha que algo não está bem, se tem algum sintoma diferente, um desconforto ou mesmo se está numa fase de vida complicada, procure ajuda profissional. Podemos te ajudar a transformar este momento e a maneira como você o atravessa. A vida é preciosa.
Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:
CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. 10 Passos para prevenção de suicídio; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/09/30/10-passos-para-prevencao-de-suicidio/> Acesso em 30 de setembro de 2022.
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Como apoiar alguém que está enfrentando um transtorno mental?

Quando um amigo ou um familiar enfrenta um transtorno mental, é comum as pessoas se preocuparem mas, ao mesmo tempo, não saberem bem o que fazer para ajudar nessa fase tão delicada. E oferecer esse apoio pode ser mais simples do que as pessoas imaginam. Vamos juntos ver algumas ideias na prática?
1- Não invalide o que a pessoa sente
Ou seja, quando seu amigo te contar como se sente, evite diminuir esses sentimentos. Eles existem, são reais e precisam ser vistos para poderem ser cuidados.
Além disso, quando alguém tem seus sentimentos ou sintomas invalidados, pode ficar com a sensação de estar inadequado, de estar “fora da realidade” – sem saber perceber as coisas como são, e isso não é verdade.
Pode ficar, ainda, com um sentimento de culpa que não cabe aqui. Afinal, ninguém tem culpa por estar doente ou em um momendo desafiador.
Aliás, ainda que você tenha boas intenções ao fazer isso, seu amigo pode ter a sensação de estar exagerando, ou se sentir envergonhado – e se afastar de um tratamento que ele precisa fazer.
2- Evite certos tipos de comentários, como:
- “Isso não é nada”
- “É frescura, bobagem”
- “Mas tem gente passando por coisa pior”
- “É só coisa da sua cabeça”
- “Tenta não pensar nisso”
- “Nossa, achava que você era mais forte que isso”
- “Isso é falta de Deus”
- “É falta de namorar”
- “Larga disso, vai fazer umas compras/ viajar/ vai pra festa…”
Esse tipo de comentário não ajuda em nada! Mesmo que talvez a intenção seja boa, lembre-se que a pessoa também preferia não estar doente, se pudesse escolher…
Além disso, comentários desse tipo aumentam ainda mais a psicofobia, isto é, o preconceito e a exclusão de pessoas com transtornos mentais. Acredite, elas já tem desafios demais e não precisam de mais este.
3- Tenha sensibilidade e bom-senso
Você cobraria que um amigo que quebrou a perna fizesse caminhadas?
Insistiria para um amigo diabético comer um doce porque é bom ou para não fazer desfeita?
Não, ne?
Com a saúde mental é a mesma coisa. Respeite o momento e os limites da condição em que a pessoa está.
4- Sua presença faz diferença, mas…
mas nem sempre a pessoa conseguirá manter contato com a frequência que você espera. Nem sempre ela vai estar no clima de sair…
Então as dicas são:
- Não suma. É horrível passar por um transtorno mental e é pior ainda fazer isso sozinho.
- Tentem, juntos, adaptar os passeios e atividades para incluir a pessoa.
- Converse normal! Pode perguntar como está, mas não reduza toda a interação a dados sobre a saúde e os sintomas dela
5- Incentivar, sempre; cobrar, nunca!
Incentive a pessoa a conviver, a sair mais, a ter projetos e colocá-los em ação… Mas tenha em mente que existem dias mais difíceis. Não é má vontade, não é irresponsabilidade, nem pouco caso. Ela também fica frustrada e triste quando não consegue.
6- Incentive a se cuidar
- Tomando a medicação certinho
- Fazendo psicoterapia
- Fazendo outros tratamentos, quando for o caso
- Mantendo um estilo de vida saudável e equilibrado
- Atenção a sinais de piora
Dependendo do caso e se tiverem intimidade para isso, você pode até mesmo se oferecer para marcar consultas e acompanhar a pessoa – mesmo que você aguarde na recepção ou naquela padaria pertinho da clínica. Pacientes com alguns tipos de transtornos podem ter grande dificuldade para essas simples atitudes, e sua ajuda pode ser muito bem-vinda.
7- Pergunte se ela precisa de alguma coisa
Ninguém melhor que a própria pessoa para dizer do que ela precisa ou não. Muitas vezes, até mesmo atividades comuns da rotina podem ser um grande desafio.
8- Não reduza a pessoa ao transtorno
É uma pessoa inteira, assim como você. Isso vai muito além de estar com depressão, de ter autismo ou ansiedade ou TDAH… da mesma forma que a sua identidade, a sua noção de si mesmo também vai além de ter certa condição de saúde.
Da mesma forma, aprenda a separar traços do transtorno das características da pessoa. A vida fica muito mais leve para todos.
Seja luz na vida de alguém!
Seu apoio ou a falta dele podem fazer toda a diferença na vida da pessoa. Muitas vezes, estar presente já é algo que muda tudo para melhor.
Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:
CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Como apoiar alguém que está enfrentando um transtorno mental?; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/09/19/como-apoiar-algu…ranstorno-mental/> Acesso em 26 de setembro de 2022.
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Depressão em pessoas autistas

Este é um assunto muito necessário e nem sempre é falado. Depressão é uma das principais comorbidades do autismo. Por isso, ficar atento aos sintomas, que nem sempre são percebidos da mesma forma que em pessoas não autistas.
Leia também o especial Tudo Sobre: Transtorno do Espectro Autista
Por que é tão importante falar sobre isso?
Como dissemos, o autismo pode vir acompanhado de diferentes comorbidades e a depressão é uma das mais frequentes.
Além disso, a depressão é um transtorno que traz um grande risco à vida – e as taxas de suicídio entre autistas pode ser cerca de 4 vezes maior que no restante da população. Gente, isso é tão sério e triste que o suicídio é a causa mais comum de morte prematura entre pessoas autistas! Precisamos mudar isso, e o acesso a este tipo de informação é um ponto fundamental.
Quais autistas correm maior risco?
- Inteligência média ou alta
- Mulheres
- Nível 1 de suporte, em especial quando não tem as adaptações e apoios que precisa
- Autistas que ainda não têm diagnóstico de TEA – entendemos que receber um diagnóstico nem sempre é algo fácil e pode envolver alguns lutos, mas para a pessoa autista, ter o diagnóstico é um fator de proteção em muitos sentidos, inclusive quanto à saúde mental, pois a pessoa saberá melhor como se cuidar, o que fazer ou evitar, por exemplo.
Será que algo não está bem? O que observar:
- Maior instabilidade emocional
- Apatia
- Mudanças no apetite (seja comer demais ou deixar de comer, de perceber a fome)
- Mudanças no sono (dormir demais ou ficar sem sono)
- Deixar de lado atividades e assuntos que gosta, até mesmo o hiperfoco
- Aumento na frequência e/ou intensidade das crises
- Maior dificuldade para se recuperar de uma crise
“Peça ajuda”… Mas será que é tão simples assim?
Infelizmente não é, não, e vamos dizer os motivos:
- Nem sempre a pessoa autista demonstra suas emoções da maneira como os neurotípicos fazem (e esperam perceber)
- Muitas pessoas autistas não conseguem identificar as próprias emoções
- Existem autistas que são não verbais, dificultando a comunicação e o pedido de ajuda – é preciso que familiares, cuidadores e profissionais sempre tenham em mente que, mesmo que a pessoa não fale, ela entende, sente e ressente
- Como vimos no item anterior, alguns sinais e sintomas de depressão podem aparecer de forma diferente nos autistas, por isso é preciso que familiares, cuidadores, profissionais e os próprios autistas aprendam a identificar esses sinais
Se inspira na dica
Percebeu que algo não está bem? Um tipo de desconforto que não passa, não é bem uma crise, não é exatamente uma dor… é hora de pedir ajuda.
1- Pedindo ajuda:
- Não precisa explicar com detalhes o que está sentindo, se você tiver dificuldade para identificar ou fazer isso. Não se prenda a isso, não é o ponto mais importante
- Pode apenas expressar: “preciso cuidar da saúde mental”
- Combine um sinal com alguém de confiança (pode ser uma palavra, um gesto…)
- Seja constante nas estratégias de prevenção
2- Prevenindo depressão em pessoas autistas:
- Aprenda a perceber e identificar suas emoções – dica: elas sempre dão sinais no nosso corpo
- Durma bem, cuide do seu sono com higiene do sono – leia sobre isso aqui
- Estilo de vida saudável: isso inclui alimentação equilibrada, beber bastante água, fazer atividade física…
- Todos os dias, dedique algum tempinho a algo que você gosta de fazer, pode ser o hiperfoco ou o que quiser
- Não tente mascarar os sinais de autismo, isso aumenta muito a sobrecarga
- Dedique-se a atividades em que você possa se expressar. Por exemplo, desenhar, escrever, música, artes…
- Descanse após uma crise, uma atividade mais desafiadora ou alguma quebra de rotina
- Se precisar, use recursos para modular a sobrecarga, como abafadores de ruídos – veja aqui como escolher o ideal para você
Ao perceber algum sinal de depressão ou de que algo não está bem, procure um profissional de saúde mental. Existe tratamento, as coisas não precisam ser desse jeito.
Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:
CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Depressão em pessoas autistas; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/09/19/depressao-em-pessoas-autistas/> Acesso em 21 de setembro de 2022.
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Primeira consulta: o que esperar?

Ficar apreensivo antes da primeira consulta de psicologia ou de neuropsicologia é muito mais comum do que as pessoas imaginam. E isso é super compreensível. Afinal, muita gente ainda olha para a área da saúde mental com base em ideias erradas, que infelizmente ainda escutamos por aí: “é coisa de louco, vai parar no hospício!” E mesmo sabendo que não é bem assim… o que será que vai acontecer? O que o profissional vai fazer ou perguntar?
Como nós da Inspirati não gostamos de ver ninguém perder o sono, preparamos este post com os bastidores. Vamos desmistificar esse negócio agora!
Como devo me comportar na primeira consulta?
Sendo você mesmo. A gente sabe que pode ser difícil estar nesse lugar – a cadeira no paciente. Estamos acostumados a ter primeiras consultas com os nossos pacientes mas, ao mesmo tempo, entendemos que você só passará por uma primeira consulta desta vez. E é compreensível que você talvez esteja nervoso, apreensivo ou simplesmente não saiba o que esperar deste momento.
Por isso, não precisa tentar “passar uma imagem”. Afinal, um dos maiores objetivos da primeira consulta é que a gente se conheça melhor. E a melhor maneira de conhecer alguém é conversar e perguntar, certo? Por isso, além de ouvir você contar o motivo de ter marcado a consulta, vamos fazer uma entrevista clínica chamada anamese.
O que é anamnese?
É um questionário longo e detalhado sobre você. E isso geralmente inclui:
- Seus sintomas e queixas (quais são, quando e como começaram, como você tem lidado com eles…)
- Dados sobre sua saúde física e mental
- Sua rotina
- Sua história de vida e dados sobre a sua família
- Alimentação
- Sono
- Outros tratamentos que fez ou faz
- Se você já tem algum diagnóstico
- E mesmo se veio por suspeitar de ter algum diagnóstico – é muito legal informar isso para o profissional, hoje em dia, graças ao acesso a informação, é bem comum ter pacientes que nos procuram dizendo algo como “vi um post sobre depressão percebi que tenho alguns sintomas” ou “vi uma reportagem dobre autismo e me identifiquei, por isso vim investigar”
- Você também pode ficar à vontade para mencionar qualquer outro ponto que a gente talvez não tenha perguntado, mas que você queira dizer
Lembre-se: para um bom tratamento ou avaliação, precisamos te conhecer bem. Por isso, quanto mais detalhes e informações você trouxer, mais assertiva será esta etapa.
Vamos além das informações ditas
Calma, ninguém aqui é vidente! O que queremos dizer é que a gente também repara em outros detalhes. Por exemplo:
- O jeito como você organiza e expõe suas ideias
- Seu tom de voz
- Expressões faciais
- Postura do corpo
- Como você interage com a gente, ou seja, como escolhe estabelecer esta relação – como se mostra, em qual papel se coloca e nos coloca, etc.
- O que escolhe dizer ou omitir
- Assuntos aos quais dá mais ênfase e aqueles que prefere evitar
Por isso, o mais importante é ir à primeira consulta de “coração aberto”, ou seja, sendo você mesmo da forma mais natural possível, do jeitinho que é fora do consultório.
Lembrando sempre que:
Tudo o que você disser para a gente estará protegido pelo sigilo profissional, isto é, nenhum profissional irá expor você por aí.
Além disso, o profissional deverá agir com ética, empatia e respeito por você, pelas suas queixas e pela sua história.
Ah, e ninguém está aqui para julgar, nem para “apurar os fatos”! Afinal, escolhemos cuidar.
Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:
CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Primeira consulta: o que esperar?; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/09/17/primeira-consulta-o-que-esperar/> Acesso em 19 de setembro de 2022.