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  • Tudo Sobre: sintomas neuropsicológicos pós-covid-19

    Tudo Sobre: sintomas neuropsicológicos pós-covid-19

    “Um dia você vai acordar e vai estar sol e um dia lindo e tudo já vai ter passado. E você vai respirar com alívio e sem máscara. Vai comer o seu prato favorito com a sua família e seus melhores amigos. E vão rir de alguma coisa sabendo que todo o pior passou e que você cumpriu muito bem a sua missão. A vida segue, doutora” – Lucas*, 13 anos (*nome fictício), que enviava mensagens de incentivo aos profissionais da saúde nas redes sociais. Fez toda a diferença, Lucas. Muito obrigada.

    O tema escolhido pelo pessoal lá no Instagram para este Tudo Sobre foi Covid-19 e Covid longa/sequelas. Como este tema é rico e super extenso, combinamos que vamos focar aqui nos aspectos neurológicos/neuropsicológicos e de saúde mental.

    Antes de começar, queria contar para vocês o quanto este assunto é especial para mim. Como profissional da saúde, atuei voluntariamente na pandemia, entre 2020 e 2021, em especial acolhendo os profissionais de linha de frente. Foi algo muito intenso e com certeza vou levar sempre comigo esta experiência e a memória dos pacientes, colegas e amigos que, infelizmente, não resistiram.

    A doença é nova, mas sequelas neste tipo de quadro, não!

    Sequelas neuropsicológicas de processos inflamatórios não são algo novo, muito menos apenas ligadas ao coronavírus. O saudoso neurologista Dr. Oliver Sacks (1933-2015) já descrevia sequelas semelhantes, descritas como “encefalite letárgica”, em pacientes que tiveram gripe espanhola.

    Como o vírus atua no cérebro e sistema nervoso

    É importante começar sabendo que o vírus não afeta apenas o sistema respiratório, mas o organismo como um todo. Pode viajar através dos nervos e atravessar a barreira hematoencefálica (uma barreira de proteção que temos ao redor do cérebro – é ela quem barra a maioria dos microorganismos e substâncias que podem ser tóxicas).

    Além disso, o vírus é neurotóxico. Isso quer dizer que ele pode destruir neurônios e redes, o que dificulta as sinapses e a neuroplasticidade.

    A doença afeta os astrócitos, que são células da glia que conectam os neurônios aos vasos sanguíneos, atuando em sua nutrição e dando suporte ao funcionamento neuronal. Os astrócitos são fundamentais para a consolidação das memórias, para as sinapses e para a neuroplasticidade. Quando afetados, os neurônios deixam de receber nutrição adequada, dificultando as sinapses e a formação de novas redes neurais. Com isso, surgem os sintomas, como dificuldades de memória e de atenção, de aprendizagem, névoa mental…

    Também podem surgir autoanticorpos, ou seja, anticorpos que passam a atacar o próprio organismo, incluindo o sistema nervoso central.

    É preciso controlar o estado de inflamação

    As sequelas são associadas a um estado de inflamação que afeta o organismo de forma sistêmica. É preciso recordar que todas as condições associadas a processos inflamatórios trazem a possibilidade de gerar alterações neuropsicológicas.

    Além de estarem associadas a sintomas cognitivos, as inflamações também podem trazer sintomas ansiosos e depressivos. Esses sintomas emocionais, por sua vez, também tendem a afetar a cognição. Essa cascata de efeitos inflamatórios é, atualmente, a hipótese melhor aceita para explicar esses quadros.

    Durante o período de infecção

    O paciente também está sujeito a eventos neurológicos, por exemplo:

    • AVC (risco de formação de coagulos)
    • Insônia
    • Sono em excesso
    • Alterações no ciclo de sono
    • Alterações em funções cognitivas
    • Delírium (ex.: acreditar que a equipe de saúde estaria tentanto fazer algum mal)
    • Confusão mental
    • Estado de coma
    Os sintomas pós-covid sempre surgem imediatamente após a doença?

    Não, nem sempre. Os sintomas pós-covid podem surgir até 1 ano após a doença.

    Por isso, nem sempre os pacientes associam uma coisa à outra. Então é importante que nós, profissionais, sempre estejamos atentos a isso, investigando na anamnese e nas observações clínicas se o paciente teve Covid-19 e se apresenta alterações.

    Da mesma forma, é importante que quem teve covid fique atento a própria saúde (física e mental) no decorrer do ano seguinte à doença, buscando ajuda profissional caso perceba algo diferente.

    Quanto tempo duram os sintomas pós-covid?

    Segundo a OMS, os sintomas duram pelo menos 2 meses, na maioria dos casos, 3 meses. Mas há casos em que se estima que poderiam se prolongar por anos.

    Também é importante dizer que não se sabe sobre consequências de longo prazo da covid-19, ou seja, o que mais esses pacientes poderão vir a desenvolver daqui a alguns anos ou décadas.

    Alguns sintomas neuropsicológicos comuns após Covid-19
    • Dificuldades na memória
    • Dificuldades de atenção
    • Dificuldades na linguagem (ex. não lembrar uma palavra, se perder no que estava falando, dificuldades para se expressar…)
    • “Brain fog”, algo como uma “névoa mental”, dificuldade para pensar e se manter atento
    • Distúrbios do sono
    • Aumento da ansiedade – 30 sinais e sintomas de ansiedade
    • Crises de pânico
    • Quadros psicóticos
    • Depressão
    • Pode haver risco de suicídio
    • Problemas nas funções executivas (ex. problemas de linguagem, perder prazos, dificuldades para tomar iniciativas e decisões, problemas com organização e rotina…)
    • Fadiga crônica
    • Fraqueza muscular
    • Tonturas
    • Redução da velocidade de processamento (paciente tende a demorar mais tempo para fazer algo que, antes, era mais ágil)
    • Perda do olfato e, em alguns casos, do paladar, ou disfunção desses sentidos (sentir os odores mais fracos, sentir apenas cheiros ruins, não sentir cheiros ruins, etc.)
    • Alterações nos movimentos e coordenação motora, inclusive da fala
    • Pacientes que tiveram delirium durante hospitalização podem apresentar TEPT
    • Pode antecipar/agravar demências nos pacientes idosos e/ou que já apresentavam sinais de quadro demencial
    • Atenção ao aumento do risco de quedas (devido a tontura ou alterações na força muscular)

    Pacientes que tiveram a forma grave da doença, ou os que já tinham comorbidades cardiovasculares, neurológicas, cognitivas ou psicológicas tendem a apresentar maior probabilidade de sequelas neuropsicológicas. No entanto, cabe destacar que casos leves também podem deixar sequelas.

    “Parece que estou melhorando, mas aí pioro outra vez”

    Esta é uma queixa comum. A síndrome pós-covid-19 pode apresentar evolução flutuante, isto é, intercalar fases de melhora e de piora nos sintomas. É fundamental realizar reabilitação precoce e contínua, inclusive durante os períodos de melhora – aproveite estes períodos para avançar mais na reab, incrementando as funções neuropsicológicas e prevenindo pioras.

    Recomendações gerais em casos de sequelas:
    • Diagnóstico adequado (avaliação neuropsicológica e exame clínico)
    • Controle de processos inflamatórios – além do tratamento médico, veja algumas dicas aqui sobre o eixo cérebro-intestino e como cuidar disso pode melhorar a saúde física e mental
    • Higiene do sono – aprenda aqui como fazer
    • Organizar a rotina
    • Estilo de vida saudável
    • Descanso, inclusive fazer pausas entre atividades ou até durante uma atividade mais pesada, especialmente se sentir falta de ar
    • Atividades de lazer para melhorar a reserva cognitiva – entenda isso neste link
    • Reab com estimulação das funções afetadas. Isso pode incluir tarefas cognitivas, jogos, treino de paladar e olfato, etc. É importante começar a reabilitação o mais cedo possível.

    Lembrando que estas são recomendações gerais. Cada caso é único e precisa ser avaliado com cuidado por um profissional, assim será possível planejar o tratamento e reabilitação de acordo com as necessidades do paciente. Num cenário ideal, o melhor seria se todos os pacientes de covid passassem por avaliação neuropsicológica após a infecção, reavaliação após 3 meses, 6 meses e 1 ano – conheça nossos serviços de avaliação neuropsicológica clicando aqui

    Sobre o olfato e o paladar

    Queixas sobre alterações no paladar e olfato, e mesmo sobre a perda destes sentidos, infelizmente são comuns. Em grande parte dos casos, paladar e olfato se recuperam em poucas semanas.

    Paladar e olfato são muito interligados, neurologicamente falando. Sabores mais simples podem ser diferenciados sem ajuda do olfato – como amargo, doce, azedo, salgado… Mas a maioria dos sabores são complexos e precisam do olfato. É ele que ajuda a perceber se aquele sabor docinho é banana ou melancia, por exemplo.

    Como ter certeza se perdeu ou não o paladar? Se você comer algo e sentir sabores básicos, mas não tiver certeza de qual alimento é, então perdeu apenas o olfato. Caso nem mesmo chegue a perceber se é doce ou salgado, por exemplo, perdeu o paladar também.

    Essas alterações não estão necessariamente relacionadas a problemas respiratórios ou comprometimento pulmonar. Eles ocorrem por lesão ou disfunção do nervo olfatório ou do bulbo olfatório, região responsável pelo olfato. Caso ocorra a destruição do bulbo olfatório, a tendência é que as alterações sejam irreversíveis.

    Apesar de muitas pessoas se referirem a essas perdas como algo simples, algo menor, é notável que não são. Todos os sentidos da nossa percepção são importantes, afinal, são eles que formam o nosso contato com a realidade, com o mundo exterior a nós mesmos.

    Alguns perigos dessas perdas podem incluir a ingestão de alimentos impróprios para o consumo, e até mesmo acidentes com vazamento de gás em casa. Também existem casos de pacientes que, por não sentir sabor, deixam de se alimentar como deveriam, levando a carência de nutrientes e todas as consequências que isso traz para a saúde.

    Indo além, paladar e olfato são fundamentais para nossa afetividade. Não nos alimentamos apenas para nutrir o corpo. A alimentação carrega uma série de outras questões sociais e culturais (aquela pizza com os amigos, por exemplo) e mesmo emocionais (a comidinha da mãe ou da avó, aquele prato que traz conforto e sensação de pertencimento). O olfato também está profundamente atrelado aos relacionamentos. Um paciente que perde o olfato deixa de sentir odores que são afetivos para si, que trazem boas recordações (o cheiro de terra molhada, do mar…) e o odor do parceiro ou dos filhos pequenos – apesar de nem sempre se considerar, são pontos que fazem muita diferença na criação de laços.

    O que fazer se isso aconteceu com você? Comece o quanto antes a estimular esses sentidos. Ao se alimentar, mastigue devagar e espalhe bem o alimento pela superfície da lingua. Além disso, todos os dias profure sentir e diferenciar muitos cheiros – pode usar o que tem em casa, como limão, pó de café, temperos como a canela… Se utilizar odores que tenham memórias afetivas envolvidas, melhor ainda.

    Geralmente, com esse treino, melhoras são percebidas em pouco tempo. Mas caso não perceba melhoras, não deixe de procurar tratamento. Existem tratamentos com laser para casos assim, são seguros e já são utilizados há bastante tempo com pacientes que perdem o olfato/paladar por outros motivos (pacientes em quimioterapia, por exemplo).

    Considerações sobre memória, atenção e processos cognitivos

    Como vimos, o cérebro e o sistema nervoso podem ser profundamente afetados pela covid-19. Juntam-se ao vírus, outros fatores como as consequências do isolamento, o estado de inflamação e mesmo as alterações emocionais.

    O aumento do nível de cortisol dificulta processos cognitivos como a atenção e, por consequência, a formação de novas memórias. Quando esse aumento é algo prolongado ou muito intenso, podem ocorrer alterações na arquitetura cerebral. Por isso, um ponto determinante para cuidar da memória, da atenção e de processos cognitivos é cuidar do estresse: estilo de vida saudável, higiene do sono, pausas constantes para descanso, alimentação equilibrada, atividade física…

    Além disso, é importante também cuidar dessas funções. Isso pode ser feito com atividades como jogos de memória, atividades de completar palavras/símbolos/números, palavras cruzadas, leitura, atividades motoras…

    Como dissemos, o ideal seria que todo paciente de covid passasse por avaliação neuropsicológica, reabilitação feita por um profissional e reavaliações periódicas para acompanhamento da evolução do caso, especialmente nos casos em que há sequelas na atenção, memória, linguagem e outras funções neuropsicológicas.

    Cuidando de quem cuida: saúde dos profissionais

    Foi uma guerra, né? Vimos pessoas e famílias passando por coisas que nenhum ser humano no mundo deveria passar. Ouvimos coisas que ninguém deveria ter que carregar entre na memória.

    Algumas considerações sobre a saúde mental de profissionais da saúde em contexto de pandemia e pós-pandemia:

    • Níveis altos de ansiedade e estresse merecem atenção
    • Aumento do risco de desenvolvimento de Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT) entre profissionais
    • Crises de pânico
    • Angústia constante: posso estar infectado sem saber e transmitir o vírus para meus familiares ou pessoas com quem convivo?
    • Consequências do nível de estresse elevado: alterações no sono e no apetite, dificuldades de concentração e memória, isolamento, alterações de humor, entre outras)

    É importante estar bem para cuidar de outra pessoa. As principais orientações aos colegas são no sentido de cuidar do estresse, por exemplo, com higiene do sono, atividade física e alimentação equilibrada. Organizar as lembranças dessa fase difícil podem fazer uma diferença imensa. Você pode fazer isso anotando-as ou gravando enquanto fala. Psicoterapia também deve ser considerada, em especial nos casos de TEPT e crises de pânico.

    Entre colegas: como cuidar desses pacientes?

    É profissional da saúde? Vamos conversar um pouco sobre como cuidar desses pacientes:

    • Fique atento aos seus pacientes, é muito importante perguntar se tiveram Covid-19 e se apresentam esses sintomas. Nem sempre o paciente associa o sintoma à causa, por isso, cuidado em dobro! Por aqui adotamos a prática de incluir este item na anamnese, investigando como foram os sintomas e o tratamento, se houve sequelas e como está no momento
    • Avaliação neuropsicológica para avaliar quais funções neuropsicológicas apresentam déficit, e reavaliações periódicas para acompanhar a evolução
    • Reabilitação neuropsicológica de funções em déficit deve ser contínua e iniciar o mais cedo possível
    • Controle de processos inflamatórios
    • Regular ciclo sono-vigília, orientando seu paciente sobre higiene do sono e a importância de dormir bem para a saúde e a recuperação
    • Pode haver dificuldade para metabolizar serotonina, tornando o paciente vulnerável a transtornos de humor
    • Atenção ao risco de suicídio. Pacientes que apresentem processos depressivos, ansiosos ou quadros psicóticos precisam ser monitorados com todo o cuidado quanto a isso
    • Repouso. Oriente sobre pausas e permita pequenas pausas durante as atividades de reab, de preferência antes do paciente manifestar sinais de cansaço
    • Em caso de falta de ar, fadiga ou fraqueza muscular, oriente o seu paciente a fazer tarefas do dia a dia sentado, sempre que possível (inclusive o banho – risco de queda!)
    • Monitorar saturação de oxigênio. Caso caia para 92%, fazer pausa na reab ou na atividade, para evitar sobrecarga cardíaca

    A perspectiva é que, ao longo das próximas décadas, ainda sejam comuns na clínica queixas e sequelas relacionadas ao covid. Por isso, precisamos estar preparados para o acolhimento e cuidado destes pacientes e de suas famílias.

    Para terminar: prevenção e vacinas salvam vidas!

    Todo mundo já disse isso, mas como a questão surgiu na caixinha do Instagram, viemos reforçar: vacinas são seguras! Tivemos uma pequena polêmica sobre esse assunto lá na caixinha e resolvi aproveitar este Tudo Sobre para alertar sobre o perigo das fakenews em saúde.

    Espalhar notícias falsas sempre é algo terrível. Mas quando são notícias falsas sobre saúde, elas são ainda mais cruéis: podem matar e destruir famílias.

    Não é questão de brincadeira de mal gosto, nem de opinião ou ponto de vista. E para piorar, muitas vezes essas mentiras vêm disfarçadas com um falso discurso científico. Resultado: em pleno 2022 temos pessoas com medo de vacina, igualzinho acontecia no comecinho do século passado!

    Vacinas são seguras. São tecnologias dominadas há bastante tempo, com eficácia comprovada contra tantas doenças. Doenças foram erradicadas graças a vacinação.

    “Ah, mas eu tomei e tive reação.” Lembre-se que qualquer vacina pode causar reações – e isso é apenas o sistema imunológico reagindo, aprendendo a combater a doença.

    “Mas Fulano tomou e ficou doente mesmo assim.” Nem todo mundo sabe disso, mas nenhuma vacina é tem 100% de eficácia. Mesmo assim, elas reduzem drasticamente as chances de ficar doente, de ter formas graves da doença, complicações e, principalmente, reduzem as chances de morte.

    Tome as vacinas conforme forem oferecidas para sua faixa etária e/ou condição de saúde. Siga higienizando as mãos e usando máscaras. A vida é preciosa.

    Fake news em saúde matam. Destroem vidas, famílias, sonhos… Questione o que ouvir por aí, mesmo que pareça científico. Mesmo que quem tiver contado tenha sido alguém querido, com boa intenção. Confie nos profissionais da saúde, que dedicam suas vidas ao estudo sério destes temas e ao cuidado dos pacientes, não em “aventureiros” com intenções duvidosas por trás de discursos sensacionalistas.


    Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:

    CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Tudo Sobre: sintomas neuropsicológicos pós-covid-19; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/07/04/tudo-sobre-sintomas-neuropsicologicos-pos-covid19/> Acesso em 30 de agosto de 2022.

  • Feliz dia do psicólogo

    Feliz dia do psicólogo

    Quando você escolhe entrar na área da saúde, mergulha num mundo e numa realidade completamente diferentes de tudo que você estava acostumado até então.

    Ao dar o primeiro passo na carreira, você nunca mais pensará como alguém que está sozinho: enquanto lida com as situações da sua própria vida, é impossível não pensar nos seus pacientes, em suas histórias e dores, em como cada um deles está.

    Você jura colocar sua carreira, seu conhecimento, seu tempo, enfim, você jura dedicar sua vida ao serviço do cuidado, do bem estar e da qualidade de vida de cada paciente que passar pelas suas mãos.

    Não é uma simples escolha de carreira. Você escolhe cuidar, tocar e mudar vidas.

    Feliz dia do psicólogo a todos que abraçaram esta linda profissão!

  • Testes de QI: como funciona a avaliação da inteligência

    Testes de QI: como funciona a avaliação da inteligência

    Prontos para mais um post de estudos? Desta vez, sobre inteligência e como medimos essa variável na clínica.

    Um pouquinho de história

    Os famosos testes de QI (Quociente de Inteligência) foram um dos primeiros testes psicológicos a serem desenvolvidos. São fundamentais na neuropsicologia e na psicologia e a história desse tipo de teste é um tanto inusitada.

    Tudo começou na Inglaterra, com o estatístico Francis Galton (1822-1911), que buscava uma forma de medir a inteligência humana. Para isso, ele utilizou dados como a medida da cabeça, força muscular e outras características físicas. Após analisar todos os dados coletados, Galton percebeu que, diferente de suas hipóteses, não havia correlação estatística entre inteligência e características físicas ou de força.

    Mais tarde, Alfred Binet (1857-1911) criou uma série de atividades para medir a “idade mental” de crianças em idade escolar. A ideia de Binet, era rastrear crianças com inteligência muito superior, para que fossem acompanhadas e estimuladas, e também crianças com dificuldades cognitivas. Com isso, foi possível dividir as classes de acordo com o nível de inteligência das crianças.

    Com a Primeira Guerra Mundial, o exército americano passou a utilizar uma versão adulta dos testes de QI. Com isso, era possível que os soldados recebessem tarefas de acordo com suas habilidades, melhorando o desempenho e assertividade.

    Mas se esses testes são tão antigos, ainda faz sentido utilizá-los na clínica hoje em dia?

    Sim. Porque os testes de QI que se utilizam hoje não são os mesmos do início do século passado.

    Os testes passam por atualizações e revisões constantes. Tanto as atividades incluídas nos testes são atualizadas, como também os cálculos (assim, um desempenho considerado médio em versões anteriores, pode não estar mais na média na versão atual).

    Essas atualizações são fundamentais! Afinal, nossos pacientes não são os alunos de Binet, nem os soldados da Primeira Guerra. Os testes e tabelas precisam acompanhar as mudanças, precisam ser um reflexo o mais próximo possível da nossa população.

    Por isso, além de atualizações periódicas, os testes geralmente precisam ser adaptados e validados para a população de cada país. Isso faz com que esses testes se tornem cada vez mais precisos e confiáveis.

    Fator g e Fator s

    Conforme os testes de inteligência se desenvolviam, o psicólogo inglês Charles Spearman (1863-1945) calculou a primeira análise fatorial de correlações entre diferentes testes. Ou seja, Spearman procurou padronizar os resultados desses testes, observando, por exemplo, se uma criança que obteve resultado médio em um teste, obteria resultados parecidos em outros testes. Com os resultados dos cálculos de Spearman, foi possível verificar se todos os testes de inteligência mensuravam o mesmo tipo de variáveis e o quanto os resultados eram coerentes com o nível intelectual do paciente.

    Com isso, estabeleceu o que chamamos fator g e fator s. O fator g é um tipo de inteligência geral – nos testes, os itens que avaliam o fator g sempre são aqueles que apresentam correlação mais alta com os demais itens, num cálculo estatístico. Já fator s faz referência a habilidades mais específicas, de correlação mais baixa entre os itens do teste.

    Esses conceitos de fator g e s é aceito até os dias de hoje e também são mencionados nos testes atuais.

    Inteligências múltiplas?

    Na década de 1980, os testes de inteligência foram muito questionados. Afinal, faz sentido querer mensurar estatisticamente o nível de inteligência de alguém? E o que é inteligência, afinal? Será que apenas boas notas e bom desempenho escolar é o suficiente para dizer que alguém é inteligente? Será que uma criança com dificuldades escolares tem menos inteligência?

    Com esses questionamentos em mente, o psicólogo americano Howard Gardner (1943) formulou o conceito de inteligências múltiplas. Segundo Gardner, existem diferentes tipos de inteligência, e se alguém é muito habilidoso ou muito pouco habilidoso em alguma delas, isso não significa que terá o mesmo desempenho nas outras – aquela velha história de alguém que pode ser muito bom em matemática, porém ter dificuldade em linguagem, sabe?

    Gardner estabeleceu sete tipos de inteligência e, mais tarde, outros dois tipos foram acrescentados:

    • Inteligência linguística: habilidade com palavras, literatura, idiomas, escrita…
    • Inteligência musical: capacidade para compreender, diferenciar e compor padrões musicais, ritmo e timbre
    • Inteligência lógico-matemática: raciocínio lógico, habilidade com números, capacidade de dedução e de categorizar informações
    • Inteligência visual-espacial: capacidade para compreender, criar ou transformar estímulos visuais e do espaço (ambiente). Isso inclui percepção precisa de padrões, noção espacial, simetrias…
    • Inteligência corporal/cinestésica: domínio dos movimentos corporais, com precisão de movimentos, ritmo e fluidez
    • Inteligência interpessoal: habilidade para lidar com pessoas. Empatia, percepção e compreensão dos sentimentos, motivações e jeitos de pensar das outras pessoas ou grupos
    • Inteligência intrapessoal: capacidade de autoconhecimento e de perceber a si mesmo. Compreensão dos próprios limites, inquietações, motivações e sentimentos, gerenciamento do estresse e das emoções.
    • Inteligência naturalista*: habilidade de reconhecer e lidar com o mundo natural e seus fenômenos, como plantas, animais, rochas e o meio ambiente
    • Inteligência existencial*: capacidade de refletir sobre questões profundas da existência

    *Os dois últimos itens foram acrescentados mais tarde.

    A teoria das inteligências múltiplas não é um consenso na comunidade científica. Embora aceita por muitos, recebe críticas, em especial, pelo fato de não ser empiricamente verificável. No entanto, trazem uma ideia importante: a noção que temos sobre o que é inteligência é algo que pode ser diferente em épocas e estilos de vida/culturas diferentes. Por isso, a maneira de avaliar a inteligência pode mudar conforme o conceito de inteligência do qual se está partindo.

    O conceito que temos sobre inteligência não é único

    Da mesma forma como Galton pensava em medir a inteligência através de características físicas (o que, sabemos hoje, não faz sentido), os diferentes conceitos de inteligência podem levar a formas diferentes de mensurar esta variável.

    Hoje em dia o conceito mais bem aceito é o da APA (Associação Americana de Psicologia): inteligência é tudo aquilo que se refere às nossas capacidades cognitivas, ou seja, nossa capacidade de conhecer, aprender, recordar, colocar os conhecimentos em prática e mesmo de ampliá-los e refletir sobre eles.

    Isso pode envolver:

    • Compreensão de ideias complexas
    • Adaptar-se ao ambiente ou a novas situações
    • Aprender com experiências passadas
    • Usar diferentes tipos de raciocínio
    • Superar obstáculos e desafios
    • Resolver problemas com o uso da lógica
    Tá, mas e o QI?

    O QI é o resultado de um cálculo cujos valores base são os resultados de um teste de inteligência.

    O termo QI foi sugerido em 1912 por Wilhelm Stern (1871-1938), dividindo a idade mental de uma criança pela idade cronológica.

    Mais tarde, Lewis Terman (1877-1956) sugeriu multiplicar por 100 o resultado deste cálculo, evitando assim resultados decimais.

    Assim, QI= idade mental/idade cronológica x 100. Ex.: uma criança de 7 anos, com idade mental também de 7 anos teria um QI=100: pontuação considerada média.

    Teste de QI é só para crianças?

    Não. Existem testes para todas as idades. Além disso, muitas vezes, o mesmo teste pode trazer atividades diferentes para faixas etárias diferentes. As tabelas de correção (que trazem as médias e desvio padrão) também são diferentes para cada faixa etária e nível de escolaridade.

    O primeiro teste de QI para adultos foi desenvolvido em 1939, por David Wechsler (1896-1981). Como o cálculo de idade mental não faria sentido para adultos, Wechsler calculou os resultados de seu teste de forma que o resultado médio sempre fosse igual a 100.

    Qual teste de QI se usa hoje em dia?

    As Escalas Wechsler estão entre as mais confiáveis e utilizadas nos dias de hoje, tanto por sua precisão quanto pelas revisões constantes. Existem versões das Escalas Wechsler para diferentes faixas etárias, incluindo até mesmo uma versão abreviada.

    Outro ponto favorável das Escalas Wechsler é o fato de trazerem diferentes subtestes (diferentes “tarefas” que formam o teste), numa avaliação bem completa e que traz resultados em forma de QI verbal, QI de execussão e QI total. Essa divisão é importante, em especial, quando nos deparamos com casos de pacientes com QI em valores muito acima ou muito abaixo da média, pois permite verificar quais habilidades se destacam para mais ou para menos.

    Obviamente, existem outros testes de inteligência importantes e também utilizados, incluindo até mesmo testes não verbais.

    Qual o QI normal?

    Em qualquer grupo ou faixa etária, o QI médio sempre será 100, dentro de uma faixa (desvio padrão). Assim, uma pessoa com QI na faixa média t inteligência dentro do esperado para o seu grupo normativo (geralmente definido por idade e nível de escolaridade).

    Vamos ver abaixo as faixas de classificação de QI, de acordo com as Escalas Wechsler:

    • 130 ou mais: Muito Superior
    • 120-129: Superior
    • 110-119: Média Superior
    • 90-109: Média
    • 80-89: Média Inferior
    • 70-79: Limítrofe
    • 69 ou menos: Muito Inferior

    Lembrando sempre: o QI é apenas mais um dado na avaliação de um paciente e não deve ser utilizado para fechar diagnósticos ou prognósticos de forma isolada. É um dado que ganha importância ao se considerar o todo de uma avaliação (história clínica, história de vida, aspectos emocionais, dinâmica psicológica, funções neuropsicológicas…)

    Para que se faz teste de QI na clínica?

    Para muitos tipos de situação. Alguns exemplos são:

    • Avaliação neuropsicológica (incluindo casos diversos, como suspeita ou acompanhamento de Alzheimer e outras demências, autismo, TDAH, déficits em funções específicas, pós AVC, casos de tumores cerebrais, TCE…)
    • Dificuldades escolares
    • Suspeita de deficiência intelectual
    • Rastreio de altas habilidades
    • Orientação vocacional e planejamento de carreira
    Inteligência e funções neuropsicológica

    Explico sempre para os meus pacientes que o cérebro é como o maestro em uma sinfonia: ao ter que dar conta de uma tarefa, nenhuma função trabalha de forma isolada. Com a inteligência e a aprendizagem também é assim. Apenas uma ótima memória não é garantia de bom desempenho escolar, por exemplo. Estas são algumas das funções neuropsicológicas que se relacionam à inteligência e a capacidades como aprender e resolver problemas:

    • Atenção
    • Linguagem
    • Raciocínio matemático
    • Memória
    • Memória operacional
    • Capacidade visual e espacial
    • Planejamento
    • Inibição e controle de impulsos
    • Tomada de decisões
    • Pensamento abstrato
    • Lógica fuzzy (capacidade de lidar com algo e tomar decisões com base em informações incompletas, usando a lógica para deduzir dados faltantes)
    • Praxias (ações, gestos, coordenação dos movimentos)
    Finalizando este artigo…

    Vamos lembrar mais uma vez: aquilo que entendemos por inteligência pode variar conforme o contexto e, quando o conceito de inteligência muda, a maneira de avaliá-la muda também.

    O QI é um dado muito importante numa avaliação neuropsicológica. Mas, isoladamente, este dado não basta para fechar diagnósticos ou estabelecer prognósticos. É preciso, sempre, considerar outros dados e o paciente como um todo.


    Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:

    CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Testes de QI: como funciona a avaliação da inteligência; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/08/10/testes-de-qi-com…-da-inteligencia/> Acesso em 10 de agostoo de 2022.

  • Como o cérebro adota um novo hábito?

    Como o cérebro adota um novo hábito?

    Sim, mudar um hábito pode ser mais complicado do que parece e não, não leva 21 dias. Hoje vamos te contar o porquê disso.

    É comum ver essa informação circulando por aí. A ideia de que o cérebro leva 21 dias para se acostumar com um novo hábito é fruto de teorias antigas, da década de 1960. Hoje em dia já sabemos que não é bem assim que a coisa funciona.

    Então em quanto tempo o cérebro cria um novo hábito?

    Na realidade, o cérebro leva em torno de 2 a 3 meses para aderir a um comportamento e torná-lo um novo hábito.

    Mas por que tem vezes que é tão difícil mudar ou adotar um hábito?

    Tudo aquilo que a gente faz é processado pelo nosso cérebro. Até mesmo atividades que parecem super simples, como tomar um copo d’água ou caminhar ou ficar na rede social.

    E quanto mais repetimos um comportamento, mais forte as redes nervosas ligadas a ele ficam. Como se a gente reforçasse e atualizasse essas redes a cada nova repetição.

    Como você já deve imaginar, com o passar do tempo, essas redes se tornam cada vez mais fáceis de serem usadas – aquela história de “a prática leva à perfeição” tem sua verdade.

    Então, quando pensamos em mudar ou deixar de lado um hábito antigo ou muito constante, é difícil. Porque foge daquilo que seria a resposta/reação mais óbvia e “natural” para nós.

    Assim, adotar, mudar ou deixar de lado um hábito leva tempo, até que a rede seja modificada ou que uma nova rede seja criada e reforçada mais e mais.

    Alguns fatores que interferem nesse tempo:
    • A vontade que temos (ou não temos kkk) de aderir ao novo hábito;
    • Se já existe alguma familiaridade com o comportamento que queremos transformar em hábito. Por exemplo, passar a nadar todas as manhãs pode ser mais simples para quem já sabe nadar do que para quem ainda vai aprender;
    • O quanto esse novo comportamento é simples, ou seja, o quanto envolve poucos “passos”. Isso faz com que seja facilmente integrado ao dia a dia. Por exemplo, tomar um copo d’água pela manhã envolve menor necessidade de planejamento e atenção do que passar a estudar durante 1 hora toda manhã.
    Mas e para deixar de ter um hábito, ou algum comportamento que queremos parar?

    O cérebro sempre se percebe aderindo a um hábito, seja começar a fazer exercícios ou deixar de fazê-los, por exemplo. Isso acontece porque o cérebro não percebe as coisas da maneira como costumamos contar, mas como sequências de comportamentos. Assim, tanto criar quanto perder um hábito é sempre entendido pelo cérebro como a troca de um comportamento por outro.

    Então podemos dizer que quanto mais as redes nervosas ligadas a esse hábito são “fortes”, ou seja, quato mais são usadas, e/ou antigas são, mais difícil é deixar de lado ou mudar o hábito.

    Por isso, tanto para iniciar um comportamento, quanto para deixar um hábito de lado, o tempo é o mesmo. Por exemplo, veja como a gente estranha e até sente falta, sente algo meio fora do lugar, quando se tem o costume de caminhar todas as manhãs e deixa de ir um dia.

    Mas se o hábito for recente, alguma coisa que começamos há poucas semanas, ou se a gente não estiver muito motivada, em poucos dias o hábito tende a se perder, pois não chegou a ser instalado por completo – as redes nervosas que dão suporte a este hábito, ao não serem reforçadas, vão deixando de atuar.

    Se inspira na dica

    Quando colocamos o novo comportamento na rotina, com planejamento, é mais fácil transformá-lo num hábito. Isso ocorre porque a repetição da rotina e a lembrança do hábito ao fazer um planejamento fazem com que as redes e circuitos cerebrais ligados a esse comportamento sejam ativadas e reforçadas constantemente. E, como dissemos, quanto mais uma rede é usada, mais forte e “automática” ela se torna, fazendo com que o hábito se instale de forma cada vez mais fluida.

  • Brincadeiras sem telas

    Brincadeiras sem telas

    Brincar é algo fundamental para o desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e social da criança. É através das brincadeiras que a criança se expressa, aprende sobre o mundo em que vivemos, e desenvolve funções como a comunicação, o pensamento lógico, empatia, raciocínio, funções executivas…

    Não é “o” brinquedo ou “a” brincadeira. O que mais importa é a forma como se brinca, como se cria e se vivencia a experiência do brincar – de experimentar e experienciar o mundo.

    Por isso, as telas tanto podem ter um papel muito ruim ou muito bom nesse desenvolvimento, dependendo de como são usadas e de quanto tempo se passa com elas. O fato é que telas fazem parte da nossa realidade e, provavelmente, serão ainda mais presentes nas gerações mais novas, ou seja, é preciso saber lidar com elas de forma equilibrada. Como tudo na vida, é importante cuidar para não exagerar. Pensando nisso, hoje trouxemos algumas opções de brincadeiras sem telas. Vamos lá?

    Se inspira na dica: brincadeiras e atividades sem telas
    • Desenhar no chão da calçada ou do quintal com giz de lousa. O giz é barato e é encontrado com facilidade em qualquer papelaria. Além disso, é fácil limpar a bagunça depois com um balde d’água – ou podemos apenas deixar a arte da garotada durar! Essa atividade desenvolve a criatividade, a coordenação motora, ajuda a criança a expressar suas emoções através do desenho e ainda traz um sentimento de reconhecimento social e de liberdade quando permite ir além do desenho no papel.
    • Pular amarelinha! Vocês podem riscar a amarelinha no chão com o giz ou fazer a amarelinha com fita adesiva no chão, inclusive dentro de casa, como no quarto dos pequenos. Essa atividade trabalha funções nervosas como o equilíbrio, o planejamento da ação, atenção e concentração, além de trabalhar aspectos como a persistência e o movimento de tentar se superar.
    • Variação de atividades com desenhos, como desenhar e colorir, tentar adivinhar o que alguém está desenhando, desenho livre… todas essas atividades com desenhos ajudam a criança a se expressar e a exercitar a coordenação motora, além de ser divertido.
    • Organizar um piquenique. Vocês podem ir ao parque da cidade, a uma pracinha ou mesmo aproveitar uma sombrinha gostosa do quintal de casa. Deixem as crianças se envolverem e participarem bastante da atividade, tanto no preparo dos lanches quanto na arrumação do lugar (antes e depois da brincadeira). A brincadeira fica ainda mais gostosa se evitarem alimentos prontos, fazendo vocês mesmos os sanduíches, o suco, preparem algumas frutas ou o que a imaginação e o apetite sugerirem. Essa atividade ajuda a desenvolver a cooperação e o trabalho em equipe, planejamento, ensina a trabalhar com organização para alcançar uma meta (do que vamos precisar, o que vamos fazer primeiro, o que falta fazer, etc), além da socialização. ATENÇÃO ADULTOS: não é o jubileu da rainha, é um piquenique organizado por crianças… a ideia é se divertir antes, durante e depois, sem pressão, combinado?
    • Construir coisas com sucata: caixinhas, garrafas, latas, tampinhas, papel, papelão…  Podem fazer pés de lata, casinhas com caixas de papelão, uma cidade em miniatura para brincar com carrinhos e bonecos, criar fantasias… A imaginação é o limite! Esta é uma brincadeira acessível e divertida. Trabalha coordenação motora, criatividade, planejamento da ação e funções executivas. Quando a brincadeira terminar, todo o material usado pode ser levado para a reciclagem, ensinando às crianças a importância de cuidar do ambiente com responsabilidade.
    • Criar um teatrinho é algo interessante para a socialização, planejamento, criatividade… podem criar as fantasias e cenários com sucata e mesmo se inspirar com o que tiver em casa.
    • Fazer bolinhas de sabão. Vocês podem diluir um pouco de detergente de cozinha na água, molhar um canudinho na mistura e soprar de leve (adultos, muita atenção com crianças pequenas, lembrem que não pode tomar e supervisione esta atividade sempre). Em geral as crianças gostam muito desta atividade e ela é ótima para ser feita depois de um momento mais agitado. Por trabalhar a respiração lenta e rítmica, ajuda a criança a se acalmar e a se concentrar.
    • Festa do pijama! Com direito a desfile de pijamas, histórias e guloseimas. Isso desenvolve a socialização e incentiva valores como amizade e companheirismo. Além disso, assim como na atividade do piquenique, ajudar a organizar a brincadeira contribui bastante para o desenvolvimento do planejamento, trabalho em equipe, ajuda a criança a aprender a expor suas ideias e ouvir as sugestões dos outros.
    • Ir lá para fora e olhar as estrelas. Aprendam algumas constelações simples e fáceis de localizar, como a Cruzeiro do Sul ou as Três Marias e ensinem aos pequenos. É uma atividade gostosa, que relaxa a criança, cria um momento harmonioso de convivência entre a família e trabalha aspectos como a concentração e a atenção.
    • Soltar pipa. Mais uma atividade muito boa para acalmar, concentrar e trabalhar a percepção de espaço. Ah, lembrando sempre sobre a segurança: nada de cerol, nem de ficar perto da rede elétrica! Podem brincar num parque, praia ou lugar aberto e seguro.
    • Montar uma cabaninha com um lençol ou coberta. As crianças amam! É uma atividade lúdica e que deixará lindas memórias, além de trabalhar noção de espaço e planejamento.
    • Ler livrinhos, para os mais novinhos, a leitura em voz alta é muito recomendada para trabalhar a consciência fonêmica e fonológica, fluidez verbal, pensamento abstrato, pensamento crítico… Uma alternativa legal para esta atividade é escolher um livro para lerem juntos, um pequeno trecho cada um.
    • Criar uma história juntos. Alguém começa e o próximo continua. Esta atividade é interessante para a fluidez verbal e comunicação, interação social, cooperação, atenção, para trabalhar a rigidez cognitiva (aprendendo a improvisar e a buscar soluções quando algo sai do planejamento, por exemplo), e mesmo para trabalhar a impulsividade/aprender a esperar a vez.
    • Cantar e dançar trabalha a sociabilidade e aspectos emocionais, além de coordenação motora. A musicalidade traz também a noção de ritmo que, por sua vez, ajuda com a fluidez de movimentos, fluidez verbal e mesmo durante as atividades do dia a dia.
    • Apagar as luzes e usar uma lanterna para fazer sombras é uma atividade que trabalha a coordenação motora e pensamento lógico (como preciso posicionar as mãos para ter a sombra que quero criar). Além disso, para crianças com medo do escuro, esta atividade pode ajudar a lidar com este medo, mostrando que não tem nada a temer e que pode até ser divertido. Adultos: se a sua criança tem medo, sem forçar, combinado? Um passo por vez…
    • Dobradura e origami. Esta é uma ótima atividade para trabalhar a coordenação motora, planejamento, funções executivas… Para variações, as dobraduras podem ser feitar copiando a demonstração de alguém, ou lendo instruções ou, ainda, ouvindo instruções de outra pessoa.
    • Brincadeiras clássicas, como esconde-esconde, jogar bola, mímica, vivo ou morto… podem ser ótimas alternativas, e geralmente trabalham bastante a parte motora e social.
    • Jogos clássicos, como jogo da memória, quebra-cabeça, dominó… trabalham as funções cognitivas como memória, atenção, pensamento lógico, além de trazer a questão do respeito às regras e combinados, lidar com a frustração, esperar a vez de cada participante…
    Lembrando…

    As brincadeiras ficam ainda melhores quando os adultos participam, criando um momento gostoso e especial, cheio de memórias afetivas. Ah, e criem também as suas atividades, adaptem, brincadeira não tem certo e errado, desde que todos se divirtam e se sintam respeitados, por isso, permitam-se!

  • História da Neuropsicologia

    História da Neuropsicologia

    Vamos de post de estudos? Vamos! Hoje vamos ver um pouco da história da neuropsicologia e como essa área super interessante se tornou o que é hoje.

    Introdução: da Antiguidade à Idade Moderna

    William Osler foi um médico canadense que, em 1913, foi o primeiro a adotar o termo neuropsicologia para se referir ao estudo das funções mentais, cognição e emoções e sua relação com o cérebro, mas a história das neurociências é muito mais antiga.

    Milênios atrás, o ser humano já realizava trepanações no crânio, isto é, neurocirurgias rudimentares. Surpreendentemente, registros fósseis mostram que muitos pacientes sobreviviam por diversos anos após o procedimento.

    No Egito Antigo e em diferentes culturas da época, o coração, e não o cérebro, era visto como sede dos nossos desejos, medos, pensamentos e emoções.

    O médico grego Alcméon de Crotone (século VI a.C.) foi o primeiro a ir contra este pensamento. Além de inaugurar o método experimental na área biológica, dissecando cadáveres, concluiu que aquilo que nos governa não está no coração, mas sim no cérebro.

    Hipócrates (século V a.C.) ampliou essa ideia, afirmando que transtornos mentais e neurológicos não eram ação sobrenatural, como castigo divino ou algum mal causado por demônios, e sim algo natural, originado de problemas cerebrais.

    Mais tarde, no século II a.C., Galeno percebeu que as funções mentais/cognitivas se localizavam no cérebro.

    Estes conhecimentos, que hoje em dia parecem óbvios, significaram um grande passo para a medicina e as neurociências que surgiriam muitos séculos depois, pois até então havia uma intensa polêmica sobre o assunto. O comum na época era considerar o coração como sede dessas funções. Veja na linguagem popular, até hoje, como dizemos “siga o seu coração”, “falar de coração”

    Estas foram as bases das neurociências por muitos séculos, sem grandes mudanças. Apenas no século XVII o filósofo Descartes voltou a tocar nesse assunto com mais consistência, levantando outra polêmica: de onde viria a mente ou a consciência (que ele denominava “alma”)? Ele era um entusiasta do dualismo, ou seja, ele via corpo e alma, ou, na linguagem da ciência atual, cérebro e consciência, como coisas distintas e separadas. Na Idade Moderna, uma preocupação comum era sobre a alma/psique, qual seria sua origem e seu papel na vida do ser humano.

    1º Período: 1860 a 1905

    Com os avanços científicos do século XIX, surgem os estudos localizacionistas, isto é, que tentavam associar certas funções e comportamentos a determinadas áreas cerebrais. Para isso, os cientistas se valiam de estudos de casos dos seus pacientes, o que podia ocorrer de duas maneiras: a primeira era verificar as alterações na cognição, emoções e comportamentos de pacientes que tiveram lesão cerebral, relacionando essas sequelas às áreas lesionadas.

    A segunda forma de estudo implicava em dissecar o cérebro de pacientes com determinados transtornos, deficiências intelectuais ou alterações comportamentais (lógico, só após a morte do paciente!), buscando perceber diferenças entre o cérebro dessas pessoas ao compará-los ao cérebro saudável.

    Surpreendentemente, algumas dessas áreas se provaram realmente corretas e permanecem até hoje, tendo recebido o nome de seus descobridores, como a área de Broca (relacionada à linguagem) e a área de Wernicke (compreensão da fala).

    2º Período: 1905 a 1940

    Descobertas de estudos do período anterior premaneciam em voga e davam resultados tardios, como as áreas de Brodmann, mapeamento das funções nervosas superiores (como linguagem, atenção, modulação do comportamento emocional, raciocínio lógico…), um mapa completo do córtex cerebral (a camada mais externa do cérebro) publicado em 1909. O mapa das áreas de Brodmann foi, desde então, periodicamente revisado e atualizado.

    Ao mesmo tempo, surgia uma corrente de estudos antiassociacionista, que rejeitava os objetivos e métodos do período anterior, acreditando que os processos mentais não poderiam ser decompostos em subprocessos, pois para os cientistas do segundo período, a expressão dos fenômenos mentais era algo mais complexo do que os processos neurológicos envolvidos.

    Nesta fase, sistemas psicológicos como a Gestalt tiveram grande influência na neuropsicologia e nas neurociências.

    Dizemos que esta foi uma fase “pré-científica” no sentido de usar amostras bem pequenas, fazendo praticamente apenas estudo de caso baseados em observação e abandonando grande parte do cientificismo característico do período anterior.

    Nada parecido com a neuropsicologia e as neurociências de hoje em dia, não é mesmo? Vamos passar para o próximo período para saber como essa história se desenrola!

    3º Período: 1945 a 1970

    Nesta fase, foi preciso superar os problemas do período anterior, especialmente quanto ao método científico. Assim, os estudos de caso foram trocados por amostras grandes, os dados dos pacientes passaram a ser comparados aos de pacientes saudáveis da mesma faixa etária, e a simples observação foi trocada pelo uso de instrumentos como testes, para os quais era realizado todo um estudo de validação antes de serem utilizados, tornando a mensuração de certos processos cerebrais, comportamentos e habilidades algo que podia ser quantificado, comparado ao restante da amostra e, assim, seria possível buscar tratamentos mais eficientes. Neste período floresceu a avaliação neuropsicológica, com o surgimento de muitos testes, intrumentos e procedimentos com esta finalidade.

    4º Período: décadas de 1970 e 1980

    Neste período a atenção dos neurocientistas se voltou para a forma como o cérebro processa as informações, enfatizando a Neuropsicologia Cognitiva.

    Os modelos teóricos passaram a vir cada vez mais de estudos de laboratório.

    Outro marco da época é o destaque dos estudos com sujeitos saudáveis, não mais apenas patologias e transtornos.

    Também nesta época, foram divulgados e enfatizados estudos de fases anteriores, como os de Alexander Luria, que via o cérebro com destaque para diferentes sistemas funcionais, e a localização das funções cognitivas como algo dinâmico, que envolve áreas diversas e é fortemente influenciado pela cultura, meio social, ou seja, pela forma como o cérebro de cada pessoa foi estimulado e habilitado, pela educação que cada um recebeu, pelas experiências que teve e pela forma como processou e deu sentido a tudo isso.

    5º Período: 1990 em diante

    A década de 1990 é considerada a “década do cérebro”, neste período os conhecimentos das neurociências avançaram tremendamente. Novas tecnologias, como os exames de imagem cada vez com mais precisão foram de grande valia, permitindo ampliar a compreensão do cérebro e das funções neuropsicológicas.

    Um exemplo disso foi o estudo de M. Glasser, de 2016, que ampliou as 52 áreas de Brodmann para 180 áreas, definidas, inclusive, quanto à espessura do córtex. Este foi um avanço imenso para os processos de diagnóstico e tratamento, tornando tudo muito mais preciso e assertivo.

    Também surgem exames de neuroimagem casa vez mais refinados, como a tractografia, um exame baseado em ressonância magnética que, através de um software, mostra os caminhos que as moléculas de água percorrem na substância branca do tecido cerebral. Em outras palavras, a tractografia nos mostra os “caminhos neurais”, a trajetória que as informações percorrem no cérebro através das sinapses (os tratos ou tractos).

    Algo que antes eram hipóteses e que agora observamos na prática com exames de imagem e testes neuropsicológicos refinados, é que as vias neurais, formas de processamento de certos tipos de informação e até mesmo algumas áreas cerebrais podem ser diferentes para cada cultura e até para cada pessoa, dependendo da educação, história de vida, história clínica, visão de mundo…

    Hoje em dia…

    Na fase atual, ganham destaque aspectos clínicos, como a avaliação neuropsicológica, um conjunto de testes, procedimentos e atividades que busca conhecer o perfil neuropsicológico do paciente, incluindo funções como memória, atenção, linguagem… mas também aspectos afetivos/ emocionais, sociais e de personalidade.

    Com esses dados, é possível ter uma base completa do funcionamento do paciente, além de planejar o tratamento e as intervenções de maneira assertiva, tornando todo o processo muito mais ágil e seguro. Após a avaliação, os próximos passos podem incluir reabilitação (no caso de haver funções neuropsicológicas com algum déficit), psicoterapia, encaminhamento para outros profissionais (psiquiatra, neurologista, fono, terapeuta ocupacional… conforme cada caso).

    Para conhecer nossos serviços de avaliação neuropsicológica e tratamentos, clique aqui.


    Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:

    CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. História da Neuropsicologia; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/06/20/historia-da-neuropsicologia> Acesso em 29 de junho de 2022.

  • Como manter o foco nas nossas metas?

    Como manter o foco nas nossas metas?

    No último post a gente conversou sobre planejamento e procrastinação. Sempre que falamos sobre isso, surgem queixas sobre dificuldade de ter disciplina, de manter essas metas/planejamento sem desanimar e sem ir deixando de lado. Então hoje vamos ver algumas ideias para manter aquela motivação:

    Se inspira na dica: nada de desanimar das suas metas!
    • Escreva suas metas e coloque em algum lugar que você veja sempre. Escrever ajuda a trazer para o concreto aquilo que parecia ser apenas uma ideia. Ao mesmo tempo, ver constantemente essa lista ajuda a se lembrar dos seus planos, mas também da animação e esperança que sentiu ao escrevê-los.
    • Seja realista. Suas metas precisam caber no seu dia a dia. Ou seja, um passo por vez. Lembre-se que ninguém passa de sedentário a maratonista vencedor da São Silvestre da noite para o dia… Óbvio que é possível, mas o processo faz parte e vai ser vivenciado.
    • Divida metas maiores em pequenas mini metinhas. Tipo um passo a passo, sabe? Um planejamento. Com isso a chance de colocar em prática aumenta muito! Por exemplo, ao invés de “terminar o TCC” prefira anotas os passos que isso envolve, como “ir à biblioteca e separar material sobre tal e tal assunto”, “ler e fichar o material”, “estabelecer os tópicos de cada capítulo” e por aí vai
    • Distribua esses pequenos passos ao longo do tempo, ou seja, o que vamos fazer a cada mês/semana para chegar naquela meta? Qual o próximo passo? No exemplo do TCC, talvez a atividade da semana seja separar os materiais, das semanas seguintes ler e fichar, etc.
    • O ideal é que suas metas dependam apenas de você. Invés de “ter amigos mais presentes”, é melhor “ser alguém mais presente – como? – me envolvendo mais com pessoas queridas, saber se estão bem, se posso ajudar em algo, guardar tempo de qualidade para estar com eles, etc.”
    • Ah, nessa mesma pegada da meta depender apenas de você: ganhar na loteria não é meta, tá? Mas um bom planejamento financeiro, é!
    • Suas metas precisam fazer sentido pra você. O foco de qualquer tipo de planejamento, seja de um TCC, uma lista de metas de ano novo ou de algum projeto é te ajudar a se plogramar e a se organizar no tempo, não lotar o papel. Não é porque muitas pessoas sonham em dar a volta ao mundo que você necessariamente quer isso também – afinal, como diria a mãe da gente, a gente não é todo mundo! Mas, se quiser, se for algo que faz sentido aí dentro de você, tudo certo!
    • Leia suas metas constantemente, adapte o necessário, é normal a vida ir se transformando, o ambiente ao nosso redor ir se modificande e até a gente mesma mudar, por isso, recalcule a rota frequentemente
    • Faça algum monitoramento das etapas que já foram cumpridas, por exemplo, riscando ou marcando um X em cada “mini metinha” que já foi cumprida. Isso facilita perceber o status de cada projeto e é uma delícia perceber que já caminhamos um trecho até aquela meta que parecia tão distante.
    Um ponto fundamental…

    Cerque-se de inspirações! Aí vão algumas maneiras de fazer isso:

    • Registre o seu processo! Tire fotos do seu durante e olhe para elas quando bater o desânimo, quando achar que não está chegando a nenhum lugar. Se você gosta de escrever, criar um tipo de diário do seu processo pode ser uma ótima opção também.
    • Crie também um painel ou um álbum no celular com inspirações de todos os planos e projetos incríveis que você ainda vai colocar em ação algum dia, como aquela viagem dos sonhos, a casa linda, a vida saudável…
    • Cerque-se de tudo aquilo que vai na mesma direção do que você quer colocar em prática. Tudo que for ligado a isso, como conteúdos, assuntos, pessoas que estão numa caminhada semelhante à sua.
    Lembrando…

    Não existe mágica! Motivação é algo que precisa ser constante. Ninguém se sente motivada todos os dias, isso é normal. É justo aí que o planejamento entra! É ele que nos ajuda, facilitando o andamento dos projetos e aproximando da nossa realidade aquelas metas que parecem distantes demais. Vai no seu tempo. A ideia de um bom planejamento não é se cul´par, se sobrecarregar ou se comparar com os outros. Muito pelo contrário! A ideia de ter metas e planejamento é tornar tudo mais leve. Por isso, vai do seu jeito, no seu tempo e pare pra descansar ou para apreciar o caminho.

  • Como evitar a procrastinação

    Como evitar a procrastinação

    Deixar tudo para depois e procrastinar até o último momento são dificuldades comuns. Por isso, hoje vamos falar um pouquinho sobre isso – obviamente com dicas práticas para se planejar melhor e contornar essa situação!

    Procrastinar não é o problema, é a forma como você percebe o problema real, que está por trás disso

    É bom lembrar que até certo ponto procrastinar é normal. Afinal, o cérebro sempre tenta economizar energia. Além disso, a procrastinação não é o problema, e sim a maneira como percebemos a situação que está por trás, como se fosse um tipo de sintoma. Então a gente se queixa sobre procrastinação, mas esse comportamento é apenas uma forma como a verdadeira questão se mostra para nós.

    Algumas causas comuns da procrastinação:
    • Insatisfação (com a tarefa, com o contexto, com a própria realidade). É legal fazer uma boa revisão do seu momento de vida, tentando perceber se você realmente está indo pelo caminho que almeja, se as atividades do momento estão te levando mais pertinho dos seus sonhos
    • Insegurança e o famoso medo de dar errado (ou de dar certo!)
    • Dificuldade de planejar e organizar a tarefa/meta. Este ponto aqui é mais comum do que as pessoas imaginam! A gente olha aquela meta ou tarefa imensa, complicada… e não vê os passos, apenas algo distante, que parece inatingível
    • Procrastinação como sintoma neuropsicológico, por exemplo, sobrecarga, dificuldades de atenção ou de memória, estresse…
    • Cansaço (dá um pause aí!)

    Por isso, é legal se conhecer, se observar, para ver o que está causando esse comportamento e cuidar das causas.

    O que fazer?

    Além de cuidar das causas da procrastinação, um bom planejamento é uma das chaves para superar essa dificuldade.

    Quando planejamos bem, reduzimos o estresse. O cérebro fica confortável em saber qual o próximo passo e pode direcionar atenção para a tarefa ao invés de usá-la para tentar lembrar e desvendar o que virá a seguir.

    Se inspira na dica: algumas dicas para se planejar
    • Organize-se com uma agenda ou uma lista das tarefas e compromissos
    • O ambiente interfere no nosso estado mental e emocional, mantenha-o limpo e organizado
    • Tenha uma rotina com hora para começar e terminar
    • Programe intervalos. O cérebro se concentra melhor quando sabe que o esforço será só por certo tempo
    • Comece pelo que é mais urgente
    • Simplifique cada tarefa em pequenos passos. Ao invés de “trabalho de neurociência” prefira listar: pesquisar materiais, ler os livros e papers, redigir o texto, formatar e colocar na ABNT. Assim assimilamos as tarefas mais facilmente, reduzindo o medo e a ansiedade, além de nos estimular conforme notamos cada pequeno progresso
    • Elimine estímulos que desviam sua atenção. Ex. se você interrompe a tarefa para olhar o celular, é uma boa ideia deixá-lo longe da sua mesa
    • Durma bem, se hidrate, leve uma vida saudável. Isso está muito relacionado com a atenção, a memória, a capacidade de focar e mesmo com a sensação desanimo
  • A lista de 100 – exercício de escrita terapêutica

    A lista de 100 – exercício de escrita terapêutica

    Este é um exercício simples de escrita terapêutica, para ajudar você a se conhecer melhor, perceber suas prioridades e colocar seus projetos em ação.

    Objetivo:

    Se conhecer melhor, fazer escolhas com mais autonomia e tomar atitudes que te levem na direção do que você quer para sua vida.

    Material:

    Papel e lápis (ou caneta). É legal escrever à mão, assim exercitamos funções neuropsicológicas diferentes de apenas digitar. Falamos um pouco mais sobre isso neste outro atrigo.

    Onde:

    Procure um lugar tranquilo, onde ninguém interrompa. Pode ser no seu quarto, num cantinho gostoso da casa, ou mesmo num parque, num café…

    Instruções:

    Faça uma lista com 100 experiências que você gostaria de vivenciar. Não precisa necessariamente ser algo que você nunca fez.

    100 é um número ousado, parece muita coisa, né? Vai no seu tempo. Isso não é uma corrida, nem um desafio. É um tempo só pra você. Provavelmente não vai fazer isso de uma vez. Quando fiz, eu levei 10 dias, e é bem gostoso separar alguns minutos para sentar com a nossa lista e pensar em mais atividades que gostaríamos de fazer, experiências que temos vontade de passar…

    Lembrando…

    Lembrando que esta é uma atividade totalmente livre. Então você decide como fazer. Algumas pessoas podem preferir preencher certo número de itens por dia. Outras podem gostar de fazer sessões de escrita por tempo. Ou ainda levar a lista com você e preencher sempre que lembrar de mais alguma coisa. Ou combinar todos os jeitos.

    Repare como no começo pode parecer difícil, algumas pessoas podem ter uma vontade de preencher a todo custo. Conforme os números se aproximam do 100, a gente vai ficando seletiva, pensando mais no quanto cada atividade faz sentido ou não, no quanto cada coisinha da lista nos representa e fala sobre nós, nossa história e nossos planos. Anote reflexões e percepções sobre si e sobre o processo quando te ocorrer algo.

    Importante!

    Evite ler a lista antes de terminar. Sim, no final, ao ler tudo, você vai ver que tem várias coisas repetidas – isso faz parte do exercício. Fique de olho nelas: provavelmente são mais importantes pra você neste momento ou contam algo relevante sobre você e o que você busca.

    Boas práticas!

  • Eixo cérebro-intestino: o intestino faz muito mais pela saúde mental do que você imagina

    Eixo cérebro-intestino: o intestino faz muito mais pela saúde mental do que você imagina

    Talvez pareça estranho, mas é fato: o intestino é um órgão fundamental para  a nossa saúde mental, cognição e equilíbrio emocional. Muitos estudos vêm sendo realizados sobre o eixo cérebro-intestino e as relações entre o sistema gastrointestinal e o sistema nervoso central. Vamos conversar um pouquinho sobre alguns pontos interessantes  dessa curiosa relação:

    O intestino também “digere” emoções

    E isso não é novidade nenhuma! Afinal, quem nunca teve aquela dor de barriga antes de uma prova ou de algo importante? Isso acontece porque não somos mente e corpo, somos um todo super complexo. Por isso, um sistema do nosso organismo sempre irá interferir em outros e sofrer infuências deles também.

    No caso do eixo cérebro-intestino, os principais elos que unem esses órgãos são os vasos sanguíneos, o sistema neuroendócrino, o sistema imune e o nervo vago (que conecta o cérebro aos órgãos do corpo).

    95% da serotonina é produzida no intestino

    Muitas pessoas ficam surpresas com esta informação. A serotonina é um neurotransmissor, uma substância produzida pelo nosso organismo e que tem papel fundamental nas emoções e no equilíbrio do humor – mas também tem outros papéis: atua na cognição, na sensação de saciedade, na motricidade e nos movimentos, na manutenção da temperatura do corpo, na frequência cardíaca e no desejo sexual, por exemplo. Pacientes com depressão e transtornos de ansiedade podem ter desequilíbrio nos níveis de serotonina. Por isso, manter o intestino saudável é fundamental para que o organismo consiga captar essa serotonina produzida lá e levá-la até o cérebro.

    Microbiota: sem ela, o cérebro não se desenvolve

    A microbiota, também chamada de flora intestinal, é o conjunto de microorganismos que vivem no nosso intestino. Sem pânico, tá? Eles nos ajudam! São fundamentais para o bom funcionamento do corpo, ajudam no metabolismo e na digestão.

    Sem microbiota adequada, o cérebro pode ter problemas em seu desenvolvimento, tanto na estrutura dos tecidos, quanto nos níveis de neurotransmissores.

    A microbiota é algo individual, ou seja, a de cada pessoa é única – tipo uma impressão digital intestinal!

    Se a microbiota está desequilibrada, os níveis de estresse e de ansiedade podem aumentar. O estresse crônico coloca o cérebro em estado inflamatório e é muito mais perigoso para a saúde física e mental do que as pessoas imaginam.

    Em idosos, a microbiota tende a ser menos variada e menor. Isso é ruim, e pode trazer alterações psicológicas e neuropsicológicas, por exemplo, no humor, no estresse, nas funções cognitivas…

    Fatores simples como alimentação saudável e prática de atividade física podem melhorar a variedade e a atuação da microbiota. E isso irá trazer ótimos resultados no equilíbrio emocional, na redução do estresse e ansiedade, e ainda melhora as funções cognitivas.

    O ambiente cultural em que se vive também interfere na microbiota! Curioso, né? A microbiota muda conforme o estilo de vida, tipo de alimentação, exposição ao sol, qualidade da água e do ar, prática de atividade física, tipo de ambiente… Ah, e essa parte não é genética, é puramente sobre o estilo de vida.

    Probióticos? Psicobióticos?

    Lembra dos lactobacilos vivos que fazem bem para a saúde? É apenas um exemplo dos probióticos, microorganismos vivos que ajudam a melhorar a quantidade e qualidade da microbiota. Para isso, é importante que esses microorganismos sejam resistentes ao processo de digestão, aos ácidos do estômago: eles precisam chegar vivos ao intestino para fazer todo o trabalho!

    Probióticos podem ajudar no controle da ansiedade e, em pacientes depressivos, diminuem as dores e processos de somatização.

    Chamamos de psicobióticos os probióticos que trazem microorganismos especialistas em melhorar a ligação cérebro-intestino.

    Disbiose, inflamação e problemas de saúde mental: uma questão sistêmica

    Disbiose intestinal é um desequilíbrio da microbiota – quando os microorganismos que fazem mal estão presentes em maior quantidade que aqueles que fazem bem.

    É uma situação que favorece inflamações. Com o desequilíbrio, o intestino também tende a ficar mais poroso, fazendo com que toxinas e inflamação cheguem ao sistema nervoso central.

    Com isso, podem surgir desequilíbrios hormonais e metabólicos, além de quadros neuropsicológicos – o estado inflamatório piora a qualidade e a quantidade de sinapses.

    Alguns sinais de disbiose:
    • Fadiga
    • Humor depressivo
    • Ansiedade – veja o artigo com 30 sinais e sintomas de ansiedade
    • Mudanças de humor
    • Lentidão cognitiva
    • Estresse
    • Desinteresse (inclusive por atividades e assuntos que gosta)
    • Sintomas gastrointestinais: prisão de ventre, aumento dos gases, azia, dores abdominais, diarreia, distensão abdominal
    • Dores de cabeça
    • Queda de cabelo
    • Unhar fracas, quebram com facilidade
    • Candidíase de repetição
    • Torna a pessoa mais propensa a desenvolver alergias (incluindo alergia a lactose e outras alergias alimentares) e doenças autoimunes
    Se inspira na dica: como cuidar bem da microbiota
    • Reduzir gordura animal
    • Alimentos integrais
    • Frutas e vegetais, em especial as frutas vermelhas
    • Iogurte e leite fermentado
    • Dieta mediterrânea (rica em “gorduras boas”, como azeite de oliva extravirgem, peixes, castanhas…)
    • Evite frituras
    • Evite bebidas alcoolicas
    • Evite excesso de açúcar e de alimentos refinados
    • Beba água! Estar hidratado ajuda a evitar a formação de placas nas paredes do intestino, permitindo absorver nutrientes, serotonina e outras substâncias – entre muitos outros benefícios
    • Atividade física
    • Fique atento aos níveis de estresse e a sintomas depressivos, especialmente se não aconteceu nada diferente no seu dia a dia para você se sentir assim

    Quer citar este texto no seu trabalho? Legal! Pode citar assim:

    CARUNCHIO, Beatriz Ferrara. Eixo cérebro-intestino: o intestino faz muito mais pela saúde mental do que você imagina; Inspirati Soluções em Saúde Mental, 2022. Disponível em: <https://atomic-temporary-203740733.wpcomstaging.com/2022/05/31/eixo-cerebro-intestino> Acesso em 01 de junho de 2022.